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Fotos Denise Videira
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O que é a doença celíaca?
A doença celíaca é uma doença crónica do intestino que surge
em pessoas com predisposição genética para desenvolver a doença
quando ingerem alimentos contendo glúten. A ingestão do glúten
vai provocar alterações típicas no intestino que impedem a
absorção normal dos nutrientes, e é característico da doença
o desaparecimento dessas lesões quando se faz uma dieta isenta de
glúten.
O que é o glúten?
O glúten é uma proteína que existe na composição de alguns
cereais (trigo, centeio, cevada e aveia). O arroz e o milho não
possuem glúten. O glúten funciona como um factor de agressão
para o intestino em pessoas geneticamente predispostas, causando
um achatamento da mucosa intestinal com atrofia das vilosidades
intestinais e diminuição da sua capacidade de absorção (em
condições normais as vilosidades do intestino delgado são o
principal local onde os nutrientes necessários ao organismo são
absorvidos).
A doença celíaca é frequente?
"A doença celíaca foi considerada durante muito tempo uma
doença rara porque o número de casos diagnosticados na população
era baixo.
Actualmente, com a melhoria dos métodos de diagnóstico e o
conhecimento de que há diferentes formas de apresentação da
doença, com um leque de sintomas variável, sabe-se que na população
adulta cerca de 1 em cada 300 indivíduos pode estar afectado pela
doença."
A doença celíaca afecta mais os homens ou as mulheres?
Embora o número de casos sintomáticos seja mais elevado no sexo
feminino, os estudos epidemiológicos em que se faz o rastreio da
doença na população independentemente da presença de sintomas,
mostram que a doença celíaca atinge de igual modo os dois sexos.
A doença celíaca é hereditária?
Sim, a doença celíaca é uma doença genética embora se
desconheça ainda a sua forma de transmissão. A probabilidade de
aparecimento da doença em familiares de primeiro grau de um
doente celíaco é de cerca de 10%.
Quais são os sintomas característicos da doença celíaca?
"Sendo a doença celíaca uma doença em que há uma diminuição
da capacidade de absorção de nutrientes no intestino, os seus
sintomas são comuns a outras doenças causadoras de má absorção
intestinal.
Os sintomas típicos no adulto são a diarreia crónica (aumento
da frequência diária das dejecções com diminuição da consistência
das fezes), a esteatorreia (fezes com um teor aumentado de
gordura, volumosas, com cor clara e brilhante, mal cheirosas e
moles) e a perda de peso (resultante de uma inadequada absorção
de nutrientes).
O quadro clínico na criança tem algumas características próprias.
Actualmente sabe-se que na maioria dos adultos com doença celíaca
não tratada apresenta formas atípicas, com queixas transitórias
e sintomas extra intestinais nem sempre associados à sua
verdadeira causa.
Assim, além da diarreia e esteatorreia que podem ser pouco
aparentes e intermitentes, pode haver obstipação (prisão de
ventre) alternando com diarreia, cólicas abdominais e distensão
do abdómen (barriga inchada), dores ósseas e cãibras por perda
de cálcio, magnésio e potássio, edema (inchaço) das
extremidades dos membros, tremores, formigueiros e diminuição da
sensibilidade das mãos e dos pés, alterações do ciclo
menstrual, pele seca, unhas quebradiças, aftas, etc. A perda de
peso, característica da forma clássica, pode não estar presente
nas formas atípicas."
Como se manifesta habitualmente a doença celíaca nas
crianças?
"Os sintomas da doença celíaca podem aparecer em qualquer
altura após a introdução de alimentos com glúten na dieta. O
seu aparecimento nas crianças é mais frequente nos dois
primeiros anos de vida mas a doença pode manter-se assintomática
até à idade adulta.
Os sintomas mais frequentes na criança pequena são a diarreia crónica,
a irritabilidade, os vómitos, o atraso de crescimento e o aumento
de peso insuficiente. À observação temos uma criança de baixa
estatura, emagrecida, com o abdómen distendido, pele seca e pálida,
olheiras e semblante triste. As suas fezes são ricas em gordura
(que não é absorvida), brilhantes, mal cheirosas, volumosas e
pouco consistentes.
A introdução da dieta sem glúten (após confirmação do diagnóstico)
leva a uma rápida modificação do aspecto das fezes, aumento de
peso, com melhoria do estado geral e do humor."
Porque é que se desaconselha a administração de papas
com glúten antes dos 6 meses de idade?
Sabendo-se que algumas crianças são susceptíveis à acção do
glúten e poderão desenvolver quadros graves de diarreia alguns
meses após a sua introdução na alimentação, procura-se com
esta medida «atrasar» essa eventualidade para um pouco mais
tarde, numa idade em que as consequências de uma diarreia
arrastada não sejam tão graves como sucede nos primeiros meses
de vida. A introdução do glúten deve fazer-se a partir dos seis
meses porque se a protelarmos muito mais poderemos originar
quadros tardios, que são mais atípicos e de diagnóstico difícil.
Como se diagnostica a doença celíaca?
"O diagnóstico da forma clássica de doença celíaca,
particularmente nas crianças, faz-se com base no quadro clínico
típico (atraso de crescimento, perda de peso, distensão
abdominal, diarreia crónica). Perante estes sintomas o médico
pede análises ao sangue e às fezes que confirmam a existência
de má absorção e pode pesquisar a existência de anticorpos no
sangue característicos da doença celíaca.
Se estes exames forem positivos a probabilidade de se tratar de
uma doença celíaca é elevada mas o diagnóstico necessita
sempre de ser confirmado através de biópsia ao intestino para
identificação das lesões intestinais típicas da doença
(achatamento da mucosa do intestino). Para um diagnóstico
correcto a biópsia do intestino tem de ser repetida seis a nove
meses após o início da dieta sem glúten, para constatar a
melhoria das lesões da mucosa intestinal, como é característico
desta doença; se as alterações da mucosa não tiverem melhorado
com uma dieta sem glúten não estamos perante uma doença celíaca."
Uma vez que a biópsia intestinal é um método invasivo
para o doente, não se pode iniciar o tratamento com base na
suspeita clínica ou na positividade das análises, apenas para
ver se as queixas desaparecem?
"Não, é incorrecto iniciar uma dieta isenta de glúten sem
confirmar previamente o diagnóstico de doença celíaca, uma vez
que este diagnóstico implica alterações profundas dos hábitos
alimentares que devem ser mantidas para o resto da vida.
É fundamental que a primeira biópsia seja realizada antes de
retirar o glúten da alimentação para poder detectar as lesões
típicas da doença e confirmar a sua melhoria depois do
tratamento."
Como se faz o rastreio da doença celíaca e a quem deve
ser feito?
"Actualmente o rastreio da doença celíaca faz-se através
da pesquisa de anticorpos específicos no sangue, que podem
sugerir a existência da doença mesmo na ausência de sintomas.
Estes testes não substituem a biópsia do intestino na confirmação
do diagnóstico.
O rastreio deve ser feito nas situações em que há um risco
potencial de existência da doença, como nos familiares em
primeiro grau de doentes celíacos, nos indivíduos que sofrem de
doenças auto imunes (diabetes, tiroidite auto imune, hepatite
auto imune, etc.), na anemia arrastada por perda de ferro sem
causa aparente, na síndrome do cólon irritável, na síndrome de
Down (mongolismo ou trisomia 21), etc.
A confirmação por biópsia intestinal deve ser proposta se o
rastreio for positivo.
A população geral é considerada de baixo risco, pelo que o
rastreio sistemático de grupos populacionais é apenas realizado
em estudos epidemiológicos."
Quais são as complicações da doença celíaca?
"As complicações que surgem na doença celíaca estão
associadas a uma exposição prolongada ao glúten, quer resulte
de um diagnóstico tardio, quer pelo incumprimento da dieta.
Entre as complicações possíveis as mais graves são o aumento
da probabilidade de ocorrência de doenças malignas (linfoma,
carcinoma do esófago ou do intestino) e o hipoesplenismo (atrofia
do baço com a consequente diminuição das defesas contra certas
infecções graves).
Quando o diagnóstico de doença celíaca é precoce e a dieta
rigorosa as complicações são extremamente raras (a mortalidade
dos doentes cujo diagnóstico foi feito na infância e cumprem a
dieta isenta de glúten é idêntica à da população
geral)."
Qual é o tratamento da doença celíaca?
"O tratamento de base da doença celíaca é a dieta sem glúten,
tão rigorosa quanto possível, e mantida durante toda a vida.
Numa dieta sem glúten devem ser excluídos todos os alimentos que
contém trigo, cevada, aveia e centeio. Os únicos cereais
permitidos são o milho e o arroz.
Para que a dieta seja rigorosa o doente deve analisar sempre a
composição dos alimentos, particularmente os de confecção
industrial. Deve ainda ter presente que alguns medicamentos têm
na sua composição excipientes que contêm glúten.
Para ajudar os doentes a identificar os alimentos comercializados
que estão isentos de glúten a Associação de Doentes Celíacos
fornece listas actualizadas destes alimentos.
Na fase inicial do tratamento, se a desnutrição for importante,
alguns doentes necessitam de suplementos de vitaminas e minerais.
Embora seja raro, nas formas mais graves da doença poderá haver
necessidade de instituir tratamentos complementares da
dieta."
A dieta sem glúten só está indicada aos doentes com
sintomas?
"Não. A dieta sem glúten deve ser feita por todas as
pessoas a quem foi diagnosticada a doença, mesmo se a forma de
apresentação é atípica ou silenciosa (sem sintomas).
A necessidade de tratamento dos doentes assintomáticos baseia-se
na existência de alterações inflamatórias mesmo quando não há
sintomas, com aumento do risco das complicações malignas nas
formas latentes ou silenciosas."
Quais são os alimentos permitidos e a evitar na dieta sem
glúten?
"Alimentos permitidos:
- peixe, carne, aves;
- ovos, leite, yogurts;
- arroz, batata, frutos e verduras frescas em geral;
- cereais de milho (corn flakes) e arroz (rice krispies);
- pão de milho e outros pães, bolos, bolachas e biscoitos
confeccionados com farinha sem glúten, à venda nas casas de
produtos dietéticos.
Alimentos a evitar:
- todos os derivados do trigo, centeio, cevada e aveia;
- pão, bolos, biscoitos, doces de pastelaria, tostas e bolachas;
- cereais de pequeno almoço contendo trigo;
- papas para bebés com excepção das de milho e arroz;
- massas e pão ralado;
- sopas de pacote, espessantes para molhos, cubos de caldo, caril
em pó, mostarda, molhos, refeições pré confeccionadas;
- chocolate, gelados, pudins, alguns queijos."
Autora: Dra Ana Ferrão
Contactos úteis
Associação Portuguesa de Celíacos
Morada: Zona 1B - Rua 1B
Lote 2 - Loja B
Quinta da Torrinha - Ameixoeira
1750-395 Lisboa
Email : apc@celiacos.org.pt
Telef. 91 921 34 96
Site: www.celiacos.org.pt
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