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EDITORIAL
A autoimunidade
extra-pancreática no Diabetes Melitus tipo 1: pesquisando também doença celíaca
Luis Eduardo P. Calliari
Unidade de Endocrinologia Pediátrica
do Departamento de Pediatria, Faculdade de Ciências Médicas da Santa
Casa de São Paulo, SP. Presidente do Departamento de Endocrinologia da
Sociedade de Pediatria de São Paulo
HÁ ALGUMAS DÉCADAS sabe-se que o
diabetes mellitus do tipo 1 (DM1) é uma doença de origem autoimune. A
auto-imunidade contra as células b pode ser gerada por diferentes
auto-antígenos e está associada freqüentemente à auto-imunidade
contra outros antígenos extra-pancreáticos. As síndromes
poliglandulares autoimunes - SPA I e II -, a associação com doença
celíaca (DC) e com tireoidite linfocítica crônica são alguns
exemplos de que a desordem de tolerância imunológica pode ser mais
geral do que específica contra as células b
(1). O aparecimento seqüencial de auto-anticorpos contra mais de um órgão
sugere ainda uma ativação independente das diferentes desordens
autoimunes. Acredita-se que estes fenômenos devam estar associados a
tipos específicos de HLA, como no caso da doença celíaca (HLA
DQA1*0501-DQB1*0201+) (2), além dos fatores ambientais como vírus.
O estudo publicado neste número dos
ABE&M por Brandt, Silva e Antunes (3) aponta para uma prevalência
de 15,3% de DC em pacientes diabéticos brasileiros. Estudos
internacionais mostram uma prevalência variável, com média de 4,5%
(0,97 a 16,4%) em uma análise de 26 publicações (4). Não sabemos se
esta elevada prevalência encontrada no estudo nacional explica-se por
alguma característica específica da população brasileira, ou por ter
sido avaliada uma amostra (n=19) do total de pacientes acompanhados
naquela instituição (n=150). Contribuindo com esta discussão, recente
publicação de Whitacker e cols (5) encontrou em 178 crianças e
adolescentes com DM1 na região de Campinas (SP) uma prevalência de
2,8% de DC. Há, portanto, que se confirmar esta prevalência com
estudos nacionais mais abrangentes.
Além da prevalência, outros dados
devem ser analisados em estudos desta natureza, como a associação com
outras doenças autoimunes (tireoidite), idade dos pacientes, tempo de
diagnóstico de DM e a existência de familiares com doenças autoimunes.
A melhor caracterização deste grupo poderia facilitar o encontro de
fatores de risco para o desenvolvimento da DC em pacientes com DM1 em
nosso meio.
É interessante notar que a presença
de sinais de DC, previamente ao diagnóstico, é geralmente pouco
relatada. Os pacientes podem não apresentar queixas ou estas podem ser
vagas e inespecíficas, não sendo percebidas pelo médico. Neste estudo
foram encontrados sintomas sugestivos em 3 dos 4 pacientes apenas após
a confirmação diagnóstica. Isto deve servir de alerta, para que
sintomas como distensão ou dor abdominal, mesmo sem outros
comemorativos, sejam valorizados, uma vez que possibilitariam um diagnóstico
mais precoce.
Existe ainda algum questionamento sobre
o benefício real do diagnóstico e tratamento dietético da DC na
população de diabéticos assintomáticos, já que a introdução de
uma nova dieta geralmente não é de fácil aceitação pelo paciente e
familiares. Acompanhamentos a longo prazo de pacientes com DM1 e DC
sugerem que após a introdução da dieta sem glúten ocorre melhora dos
sintomas abdominais, recuperação do peso para a altura e do índice de
massa corporal, bem como modificações do padrão de controle metabólico
(6).
O trabalho publicado neste número dos
ABE&M (3) tem o mérito de chamar a atenção para esta importante
associação, de DM1 com doença celíaca, que deveria ser mais
valorizada no acompanhamento rotineiro dos pacientes diabéticos. A
realização de estudos multicêntricos também seria de suma importância,
devido ao pequeno número de pacientes acometidos, já que permitiria
uma maior compreensão do panorama desta associação no Brasil.
REFERÊNCIAS
1. Calliari LEP. Diabetes mellitus e
doenças autoimunes correlatas. Arq Bras Endocrinol Metab 2003;47/2(supl.1):S33-S34.
2. De Block CEM, De Leeuw IH, Vertommen
JJF, Rooman RPA, et al, and the Belgian Diabetes Registry Group.
Beta-cell, thyroid, gastric, adrenal and coeliac autoimmunity and HLA-DQ
types in type 1 diabetes. Clin Exp Immunol 2001;126/2:236-44.
3. Brandt KG, Silva GAP, Antunes MMC.
Doença celíaca em um grupo de crianças e adolescentes portadores de
diabetes mellitus tipo 1. Arq Bras Endocrinol Metab 2004;48/6:-.
4. Holmes GKT. Screening for coeliac
disease in type 1 diabetes. Arch Dis Child 2002;87:495-8.
5. Whitacker FCF, Brunelli MMC,
Carvalho AB, Schneider GS, Iamada CF, Lemos-Marini SHV, et al.
Prevalence of celiac disease in patients with type 1 diabetes mellitus. J
Pediatr Endocrinol Metab 2004;17(suppl.5):1362.
6. Saadah OI, Zacharin M, O'Callaghan
A, Oliver MR, Catto-Smith AG. Effect of gluten-free diet and adherence
on growth and diabetic control in diabetics with coeliac disease. Arch
Dis Child 2004;89(9):871-6.
Endereço para correspondência
Luis Eduardo P. Calliari
Rua Sergipe 401 – cj. 802
01243-906 São Paulo, SP
E-mail: caliari@uol.com.br
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