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Arq. Neuro-Psiquiatr. vol.60 no.3B São
Paulo Sept. 2002
doi:
10.1590/S0004-282X2002000500028
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CALCIFICAÇÃO
INTRACRANIANA OCCIPITAL BILATERAL, EPILEPSIA E DOENÇA CELÍACA
Relato de Caso
Carlos Henrique Souza
Santos1, Iara Leda Brandão de Almeida1,
Maria Durce Costa Gomes1, Alexandre
Serafim1, Mariana Machado Pereira2,
Mauro Muszkat3, Sueli Rizzutti4,
Francy Reis da Silva Patrício5, Mônica
Carolina Miranda6, Luiz Celso Pereira
Vilanova7
RESUMO - Relatamos o caso
de uma menina com 6 anos de idade que apresentava episódios
recorrentes de diarréia desde os 6 meses de vida associada a anemia
ferropriva com desenvolvimento neuromotor normal. Aos 3 anos de idade
começou a apresentar crises parciais que foram controladas com
carbamazepina. Tomografia computadorizada de crânio aos 5 anos
demonstrou calcificações girais grosseiras nas regiões occipital e
parietal posterior bilateralmente. A ressonância magnética de crânio
evidenciou áreas de hipossinal em T2 na região parieto-occipital
bilateralmente. Realizou investigação para síndrome de mal absorção
incluindo estudo da função digestivo/absortiva (teste D-xilose),
avaliação sorológica (anticorpos antigliadina, antiendomísio e
antitransglutaminase) e biopsia de intestino delgado que demonstrou
intensa atrofia de vilosidades com infiltrado linfoplasmocitário no córion
compatível com doença celíaca.
PALAVRAS–CHAVE: doença
celíaca, epilepsia, calcificação intracraniana.
Bilateral occipital
calcification, epilepsy and coeliac disease: case report
ABSTRACT – We report a
case of a six-year-old girl with frequent diarrhea episodes associated
with ferroprive anemia from 6 months of age, normal neuromotor
development and partial seizures initiated in her 3rd year
which was controlled with carbamazepine. CT scan in her 5th
year of age demonstrated gyral calcifications in the occipital and
posterior parietal regions bilaterally. MRI has shown low signal areas
in the axial T2 sequences corresponding to the gyral calcifications
evident on the CT. Blood investigation for coeliac disease with
antigliadin, endomysial and transglutaminase antibodies was positive
and the intestinal biopsy has showed villous atrophy associated with
an increased number of intraepithelial lymphocytes and hypertrophic
criptae compatible with coeliac disease.
KEY WORDS: coeliac disease,
epilepsy, intracranial calcification.
A doença celíaca (DC) é
afecção genética, mediada pelo sistema imunológico e caracterizada
como enteropatia inflamatória crônica que acomete principalmente o
intestino delgado. Ocorre em crianças e adultos, com gravidade clínica
variável. Os sintomas resultam da hipersensibilidade à ingestão de glúten
na dieta, com consequente repercussão na absorção de vários
nutrientes. A apresentação clínica da DC é variável. A forma clássica
é a mais frequente e se inicia entre o 6º e o 12º
meses de vida, manifestando-se com quadro de diarréia crônica, vômitos,
irritabilidade, anorexia, déficit de crescimento, distensão abdominal,
diminuição do tecido celular subcutâneo e atrofia da musculatura glútea1,2.
Podem ocorrer a forma frusta ou oligossintomática em que a diarréia e
a distensão abdominal são achados constantes, porém sem
comprometimento estatural significativo e formas atípicas em que o
sintoma predominante, que é a diarréia, pode estar ausente.
Várias manifestações
neurológicas podem ocorrer em associação com doença celíaca e
incluem mielopatia, encefalopatia progressiva, encefalites,
leucoencefalopatia progressiva e multifocal, ataxia cerebelar, demência,
neuropatia periférica e miopatia3,4. Epilepsia
com crises originadas no lobo occipital com calcificações cerebrais córtico-subcorticais
envolvendo as regiões posteriores bilateralmente foram descritas em
adultos e crianças5-19. A patogênese das manifestações
neurológicas associadas à DC permanece desconhecida assim como o
mecanismo pelo qual se desencadeia a sensibilização ao glúten20.
A susceptibilidade à DC é geneticamente determinada, tendo-se
demonstrado a associação positiva com antígenos de
histocompatibilidade (HLA) de classe II, HLA-DR3 e HLA-DQ2.
A maioria dos pacientes com DC DR3 negativos são DR5/DR7
heterozigotos. Os genes DQA1 0501 e DQB1 0201 estão
localizados no mesmo cromossomo em indivíduos DR3, enquanto estão
localizados em cromossomos opostos em indivíduos heterozigotos DR5/DR7.
A susceptibilidade primária na maioria dos pacientes, 90%, é devida ao
heterodímero DQ (A1 0501 e B1 0201), isto é, DQ2. Cerca
de 2% a 10% dos indivíduos que não levam DQ( A1 0501 e B1 0201)
apresentam diferentes variantes de DR4 e DQ321-23. No Brasil,
os alelos de susceptibilidade observados em pacientes celíacos são
semelhantes àqueles descritos em outras etnias HLA DRB* 03, HLA
DRB1* 07 e HLADQB* 0224.
CASO
Menina de 6 anos de idade,
única filha de casal não consanguíneo, sem antecedentes gestacionais
e perinatais, sem antecedentes familiares, e desenvolvimento neuromotor
adequado. Evoluiu com episódios recorrentes de diarréia desde os 6
meses de vida associados a distensão abdominal persistente e anemia.
Aos 3 anos de idade, iniciou episódios em vigília, caracterizados por
cefaléia seguida de versão da cabeça e dos olhos para direita e
clonias em hemicorpo direito com perda da reatividade, inicialmente sem
resposta ao tratamento com fenobarbital e ácido valpróico, sendo porém
controlada com o uso de carbamazepina. Não há relato de crises com fenômenos
visuais. O exame clínico geral demonstrava peso no percentil 25 e
estatura no percentil 3, além de palidez cutâneo-mucosa e distensão
abdominal evidente, não sendo evidenciada a presença de angioma
facial. O exame neurológico era normal. Exames realizados incluíram:
hemograma que evidenciou anemia ( HB: 8,8 VR: 13,5-16,4g/dl), ferritina
sérica < 1,5 (VR: 9-120ng/ml), Ferro sérico: 21 (VR:37-145mcg/dl),
ácido fólico: 2 (VR: 1,1-20ng/ml), vitamina B12: 672,3 (VR: 211 a
911pg/ml), ionograma(Ca e P), função renal, hepática, glicemia,
lactato sérico, e gasometria venosa normais. Sorologias (TORCHS) e HIV
foram negativas. Avaliação oftalmológica e eletrencefalograma foram
normais.
Tomografia computadorizada
de crânio aos 5 anos de idade demonstrou calcificações girais nas
regiões occipital e parietal posterior, bilateralmente (Fig
1). Ressonância magnética de crânio evidenciou áreas de
hipossinal em T2 na região parieto-occiptal bilateralmente (Fig
2).

A investigação para doença
celíaca incluiu teste de D-xilose: 14,4 mg/dl (nl: >30mg/dl), IgA
anti-transglutaminase: 44 unid (VR: reagente >35 unid), IgA
antigliadina: 8,8 (VR: ³3), IgG antigliadina: 4,7 (VR: ³5), IgA
anti-endomísio: até 1/40 (VR: não reagente) significativo se ³1/10.
Biópsia de intestino delgado demonstrou intensa atrofia de vilosidades
com infiltrado linfoplasmocitário no córion compatível com doença
celíaca (Fig 3).

O exame neuropsicológico
mostrou inteligência na faixa média com disfunções em testes
especiais de execução.
DUSCUSSÃO
O principal diagnóstico
diferencial restringiu-se à síndrome de Sturge-Weber (SW) sem nevus
facial, da qual nosso caso distinguiu-se, em acordo com os relatos na
literatura, pelas seguintes características: ausência de sinais cutâneos
de facomatoses, ausência de déficts neurológicos, ausência de
atrofia lobar ou hemisférica ao exame de imagem (sempre presente na síndrome
de SW), localização bilateral das calcificações (frequentemente
unilateral na síndrome de SW), calcificações córtico-subcorticais
(principalmente cortical na síndrome de SW) e ausência de realce após
administração de contraste à ressonância magnética (Gd-DTPA), não
sendo demonstrada a presença de angioma pial que é considerado o mais
importante critério para o diagnóstico radiológico da síndrome de SW25.
Nossa paciente também
apresentava evidências de uma síndrome de mal absorção caracterizada
por episódios recorrentes de diarréia, anemia ferropriva, deficiência
de ácido fólico, distensão abdominal e déficit estatural. A confirmação
da síndrome de mal absorção foi realizada pelo teste de absorção da
D-xilose e pela biópsia intestinal que foi compatível com doença celíaca.
Em relação à aquelas epilepsia, à crises podem ser parciais ou
generalizadas variando desde aquelas facilmente controladas a casos
refratários. As crises originadas do lobo occipital em pacientes celíacos
epilépticos são comuns. A relação entre calcificações córtico-subcorticais
e epilepsia não está totalmente estabelecida na literatura, uma vez
que a evolução da epilepsia parece ser independente da existência das
lesões occipitais; a epilepsia pode ser uma manifestação precoce da
doença e as calcificações cerebrais desenvolverem-se mais
tardiamente.
Os mecanismos que levam às
calcificações cerebrais permanecem incertos. A deficiência de ácido
fólico foi sugerida, porém esta é uma das anormalidades bioquímicas
mais comuns nos casos de DC sem complicações. A possibilidade de um
processo inflamatório endotelial mediado por imuno-complexos também
foi proposta, em decorrência da associação existente entre DC e
algumas doenças auto-imunes; entretanto isto não explica a localização
cortical e subcortical principalmente occipital das calcificações. A
autópsia de um paciente com doença celíaca demonstrou a presença de
deposição de cálcio ao longo dos pequenos vasos e dentro dos neurônios.
A espectroscopia por raio-X das áreas calcificadas, revelou a presença
de cálcio e sílica nas lesões, sugerindo a possibilidade da
toxicidade pela sílica estar relacionada à fisiopatologia das lesões
cerebrais e das crises epilépticas, porém a forma como isto ocorre
permanece incerta26. Introduzida imediatamente após o início
da epilepsia e numa idade precoce, a dieta isenta de glúten é eficaz
para em controlar as crises epilépticas27.
Em
conclusão, a importância deste relato está em reafirmar que a doença
celíaca deve ser lembrada em todos os casos de epilepsia e calcificações
cerebrais de origem incerta, especialmente quando a epilepsia é
caracterizada por crises occipitais e as calcificações estão
localizadas nas regiões posteriores bilateralmente. Ressaltamos ainda
que, em muitos casos, os sintomas neurológicos podem constituir-se nas
manifestações mais precoces e predominantes em pacientes com formas atípicas
ou oligossintomáticas da doença celíaca.
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Setor de Neurologia
Infantil, Departamento de Patologia e Departamento de Psicobiologia da
Universidade Federal de São Paulo, Escola Paulista de Medicina, São
Paulo SP, Brasil (UNIFESP-EPM): 1Neurologista
Infantil; 2Preceptora dos Residentes do
Setor de Neurologia Infantil;3 Doutor em
Neurologia;4Mestre em Neurologia; 5Professora
Adjunta do Departamento de Patologia; 6Mestre
em Psicobiologia; 7Professor Adjunto,
Chefe do Setor de Neurologia Infantil
Recebido 19 Novembro 2001,
recebido na forma final 1 Abril 2002. Aceito 17 Abril 2002.
Dra. Iara L. Brandão de
Almeida – Rua Botucatu 740 – 04023-900 São Paulo SP - Brasil.
E-mail: iabran@uol.com.br
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