José
Domingos Fontana
O
glúten é um tipo particular de proteína amorfa e ergástica (não integrante
usual do citoplasma celular), dominante na massa protéica do trigo (80%)
e constituído de 2 subfrações protêicas: a gliadina e a glutenina, as
quais são responsáveis, dentre outras propriedades, pela elasticidade que
faculta processar a massa de panificação. Outras gramíneas relacionadas
ao trigo, tais como centeio e cevada, também contêm glúten, então respectivamente
designado de secalina e hordeína. Uma pesquisa muito recente {van Heel, W.J.(2006)
Recent Advances in Coeliac Disease. Gut 55(7), 1037-1043} indica que os glútens
de distintas gramíneas tem um peptídio comum de 33 aminoácidos, que deve
ser o responsável pela reação imune do indivíduo (geneticamente) predisposto
à doença celíaca.
O glúten enriquecido é explorado em alguns pratos de cozinha vegetariana,
dada sua capacidade de seqüestrar parte do molho, simulando o aspecto (e
sabor?) de certas carnes. A farinha de trigo rica em glúten é mais indicada
para pães enquanto que a pobre em glúten se presta à confecção de bolos.
Parece ser a fração prolamina do glúten (gliadina no trigo) ou seja aquela
rica nos aminoácidos prolina (11% a 26%) e glutamina (35% a 56%), a qual
é solúvel em mistura de água e álcool e é mais resistente à ação de
proteases como a pepsina (estômago) e quimotripsina (intestino), a mais implicada
no desencadeamento e sustentação da doença celíaca.
A doença celíaca é uma patologia digestiva que danifica
o intestino delgado e interfere com a absorção dos nutrientes a partir
da comida. Os doentes são intolerantes a uma dieta protéica baseada em
glúten. Celíaca deriva do grego “koilia”, que corresponde a abdômen.
É preciso ter em conta que a menção de glúten não evoca tão somente
o pão nosso de cada dia, mas até adesivos de selos e envelopes e cápsulas
de medicamentos e vitaminas. Quando um paciente celíaco consome comidas
contendo glúten, o sistema imunológico responde com ataque à estrutura
funcional do intestino delgado e destruição de suas protusões finas e
digitiformes, as vilosidades, as quais são diretamente responsáveis pela
absorção dos nutrientes da luz intestinal para a corrente sanguínea.
Como se trata de um dano por parte do próprio sistema imune, a doença
celíaca é considerada uma enfermidade autoimune. Numa designação mais
sofisticada é dita de enteropatia sensível à glúten. Tem conotação
genética e membros da família tornam-se efetivamente enfermos após
cirurgia, gravidez, parto, infecção viral ou até mesmo sério estresse
emocional. Estima-se que 1 entre cada 250 (Itália) ou 300 (Irlanda)
pessoas sofram de doença celíaca. Nos Estados Unidos a proporção desce
a 1 a cada 133 e, no caso de uma ocorrência familiar, a proporção entre
os parentes de 1.º grau desce para 1 a cada 22. Afeta raramente as populações
negra e asiática. Não é incomum que o paciente celíaco tenha ou
apresente tendência a outras enfermidades autoimunes, tais como
hipotireoidismo, lupo eritematoso sistêmico, diabetes do tipo 1, artrite
reumatóide e síndrome de Sjogren (infiltração das glândulas salivares
e lacrimais).
Os sintomas da doença celíaca são extremamente variados. Num adulto
pode aparecer diarréia e/ou dor abdominal, enquanto que numa criança
pode se manifestar simplesmente a irritabilidade. Outros sinais mais
comuns são: flatulência, fadiga, anemia não explicável, dor das juntas
e ossos, osteoporose e osteopenia, câimbras, crescimento atrasado,
descoloração dos dentes (perda de esmalte), aftas ulcerosas e dermatite
herpetiforme. Esta última é uma inconveniente manifestação com erupção
de bolhas que ocorre nos cotovelos, joelhos e nádegas e pode ser tratada
com dapsone (diamino-difenil-sulfona), a título de simples combate de
sintomas, já que a droga não é ativa sobre a doença de base.
A circunstância de amamentação no peito e prorrogação no prazo de
início de alimentação com trigo e outras fontes de glúten tem um
efeito claro no tempo de protelação no aparecimento da doença. O diagnóstico
da doença celíaca é dificultoso e se confunde com aqueles de
diverticulite, síndrome do intestino irritável, doença de Crohn e uma série
de infecções intestinais. Há todavia alguns autoanticorpos que aparecem
elevados na doença e que podem ser medidos na corrente sanguínea: (a)
imunoglobulina A; (b) anticorpos anti-endomísio e (c)
anti-transglutaminase tissular. Este último tipo de anticorpo apresenta
reação cruzada contra o glúten e peptídeos derivados do mesmo.
A endoscopia e a biópsia, em função do dano morfológico e funcional
no intestino delgado, confirmam com facilidade a condição de doente. As
alterações patológicas do intestino delgado através do progressivo
avanço da doença celíaca são classificadas conforme a escala de Marsh
desde (0) mucosa normal, (1) contagem de linfócitos excedendo 20 para
cada 100 enterócitos, passando por (2) proliferação das criptas de
Lieberkuhn e (3) atrofia da microvilosidades até (4) hipoplasia da mucosa
intestinal. É preciso ter em conta que a doença está presente entre 3%
e 8% das pessoas que padecem de diabetes tipo 1 e entre 5% e 10% das
pessoas que sofrem da síndrome de Down.
O único tratamento eficiente para a doença celíaca é readequar a
dieta protéica e consumir apenas produtos livres de glúten, o que alivia
os sintomas, cicatriza os danos intestinais e previne danos futuros,
protegendo a estrutura morfológica e funcional das microvilosidades
intestinais, mas uma parcela dos pacientes é incapaz de responder
positivamente a esta nova dieta. Cabe ao paciente encontrar alternativas
dietéticas, tais como arroz, soja, batata e milho, embora em países mais
desenvolvidos existam derivados de trigo, cevada e centeio isentos de glúten.
A aveia (e seu potencial glúten, a avenina) é um caso controverso de
alimento: para alguns pacientes faz mal, para outros não.
A biotecnologia poderá futuramente aportar tratamentos adicionais
através da produção de enzimas proteolíticas (e.g., prolil
endopeptidase e cisteíno-endopeptidase) especificamente capazes de
destruir a estrutura-33 do peptídio “interno” do glúten. A doença
celíaca, além das implicações aqui brevemente apontadas, gera também
limitações de ordem sociológica: veda a hóstia (convencional) aos católicos
e o matzo (pão não fermentado) aos judeus celebrantes da Pesach (Páscoa
ou passagem). Mais democraticamente, a cerveja (cujo maior ingrediente é
a cevada) é contra-indicada a todos celíacos, independentemente de
etnias ou credos.
A doença celíaca tem implicações com outras patologias
humanas. O rotavírus está identificado, nos USA, como a causa mais freqüente
de diarréias severas em crianças e a ocorrência repetitiva desta diarréia
pode provocar a evolução da doença celíaca em crianças susceptíveis,
conforme relatado no American Journal of Gastroenterology, de outubro de
2006 e com base em pesquisa da Escola de Medicina da Universidade de
Colorado (Aurora, USA). A confirmação da doença se dá na base de 1,94%
para crianças que sofreram uma única rotavirose, cifra que sobe para
4,76% no caso de dupla ou tripla rotavirose. Outra correlação forte é a
ocorrência da enfermidade celíaca em crianças que sofrem de diabetes do
tipo 1. A proporção é 1 em 8. Assim, uma equipe do Odense University
Hospital, na Dinamarca, identificou 33 pacientes celíacos dentre uma
comunidade diabética jovem de 269 indivíduos de 4 diferentes cidades ou
seja 12,3% conforme relato da revista Diabetes Care, de novembro/2006.
Outro evento grave associado à doença celíaca em adultos idosos é o
debilidade de pensamento, conforme relata a revista Archives of Neurology,
de outubro/2006 com base nas pesquisas da Mayo Clinic College of Medicine
(USA). Os detalhes de comportamento e desempenho de idosos celíacos são:
a amnésia, inabilidade para simples continhas matemáticas, confusão e
mudanças de personalidade. A completa remoção de glúten da dieta
implicou em melhora, mas apenas em uma parcela dos pacientes.
Curiosamente, o glúten de milho é um bom herbicida impedindo a
germinação de várias gramíneas e ervas daninhas. Os aspectos clínicos,
inclusive os da análise laboratorial, da doença celíaca foram abordados
numa edição de 2004 do Jornal da SBAC - Sociedade Brasileira de Análises
Clínicas pela Profa. Dra. Shirley Ramos da Rosa Utyama, da UFPR.
José
Domingos Fontana (jfontana@ufpr.br) é professor emérito da UFPR
junto ao Depto. de Farmácia, pesquisador do CNPq e prêmio paranaense em
C&T.