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Fotos Denise Videira
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Doença
celíaca: repercussões na
mineralização óssea
Gisélia Alves Pontes da Silva
J. Pediatr. (Rio J) 2003;79(4):282-3
Até
recentemente, a doença celíaca (DC) era considerada rara; acreditava-se que
ela afetava sobretudo as crianças, e que se manifestava clinicamente de forma
exuberante e característica. Com o surgimento dos testes sorológicos específicos
a partir de 1980, tornou-se possível a investigação de um maior número de
pessoas através de screening populacional, sendo identificado um grande número
de portadores de DC nas diversas faixas etárias. As formas clássicas,
consideradas estágios avançados de doença, são cada vez mais raras, e a
maioria dos indivíduos portadores de DC apresentam poucos sintomas, sutis e
inespecíficos, o que requer do médico conhecimento e perspicácia para pensar
no diagnóstico (1).
Os indivíduos portadores de DC, não diagnosticados ou negligenciados,
apresentam um maior risco de morbiletalidade a médio ou longo prazo (2). Nos últimos
anos, tem sido chamada a atenção para o fato de que a DC predispõe a
anormalidades ósseas e a alterações no metabolismo do cálcio, resultando em
osteomalácia, osteoporose e raquitismo (2-4). A patogênese da osteopenia não
é completamente esclarecida, mas o desenvolvimento de hipocalcemia (por má
absorção de cálcio) é provavelmente o evento central que poderá levar a
outros distúrbios, particularmente aos níveis elevados de paratormônio e
reabsorção óssea (2).
Carvalho et al. (5), em interessante artigo nesse número do Jornal de
Pediatria, mostram uma redução na densidade mineral óssea em um grupo de
adolescentes com diagnóstico de doença celíaca e em dieta isenta de glúten,
a pelo menos um ano. Chama a atenção o fato de o diagnóstico ter sido
realizado após os dois anos na maioria dos pacientes estudados, o que desperta
a curiosidade para saber a forma de apresentação clínica desses pacientes e o
tempo entre o início dos sintomas e o diagnóstico, a fim de se ter um melhor
entendimento das repercussões da doença nas funções digestivo-absortivas. O
fato do grupo de adolescentes celíacos apresentar uma diferença importante na
média da estatura em relação aos adolescentes do grupo controle sugere um
agravo nutricional crônico, uma vez que o grupo de estudo foi semelhante em
relação ao estadiamento puberal. Talvez a alteração observada em relação
à densidade mineral óssea esteja associada a um retardo do diagnóstico, e,
conseqüentemente, do início do tratamento. Portanto, nesse grupo de pacientes,
é de grande importância que seja assegurada a adesão à dieta isenta de glúten,
objetivando minimizar as alterações ósseas. Nas crianças não foram
observadas diferenças em relação a esse parâmetro, mas é importante lembrar
que o tamanho amostral não foi estimado para essa faixa etária, o que torna o
resultado não conclusivo, uma vez que a amostra foi pequena.
Walters
et al. (6)
observaram osteopenia em pacientes que não seguiam a dieta de isenção de glúten
e naqueles com pouco tempo de tratamento, mas observaram densidade óssea normal
naqueles que aderiam à dieta há pelo menos três anos.
A importância do estudo de Carvalho et al. (5) reside no fato de chamar a atenção
para a necessidade do diagnóstico precoce, assim como para a instituição da
dieta isenta de glúten, com o objetivo de reduzir a morbidade da doença,
especialmente quanto ao comprometimento da massa óssea. Considerando que a
massa óssea é definida antes dos 20 anos, a identificação precoce de possíveis
portadores de doença celíaca é de fundamental importância. Szathmári et al.
(3) não observaram diferença entre a densidade mineral óssea em um grupo de
crianças e adolescentes celíacos em dieta isenta de glúten há mais de três
anos, embora tenham observado repercussão no tamanho dos ossos.
Esses dados, somados a outras evidências, embasam a necessidade de se
implementar em curto prazo uma triagem em nível populacional objetivando a
identificação precoce da doença, pois assim reduziria a chance dos portadores
de DC apresentarem morbidade residual. Por outro lado, a adesão à dieta é, à
luz do conhecimento atual, a medida mais importante para assegurar mineralização
óssea normal a crianças e adolescentes celíacos.
Quando o diagnóstico da doença celíaca é feito em adultos, a adesão à
dieta não garante a normalização da densidade mineral óssea, portanto essa
seria uma população de risco para a ocorrência de fraturas. Recentemente,
Thomason et al. (7) estudaram 244 pacientes que tiveram o diagnóstico de DC na
vida adulta e compararam a ocorrência de fraturas com 161 controles, e não
observaram diferenças entre os dois grupos. Di
Stefano et al. (8)
chamam a atenção para co-variáveis que precisam ser analisadas, quando se
estuda a associação entre DC e osteopenia/osteoporose em adultos, tais como
sexo, atividade física, exposição ao sol, hábito de fumar e gravidade da
doença. É certo que estudos de seguimento com pacientes nas diversas formas de
apresentação clínica da doença, e que levem em consideração o tempo da
doença antes do diagnóstico e se há adesão à dieta, irão trazer maiores
subsídios para o entendimento do problema.
A indicação de dieta sem glúten por toda vida para os portadores da DC é um
consenso internacional, embora nas formas ditas assintomáticas, seja, por
vezes, questionada. Como as alterações histológicas do intestino delgado
podem ser as mesmas daqueles com sintomas, assume-se que mesmo os indivíduos
assintomáticos correm riscos em longo prazo, e devem ser colocados em dieta
isenta de glúten (9). Os pacientes portadores das formas silenciosas ou com
sintomatologia discreta estão possivelmente sujeitos a um maior risco de
agravos à saúde, devido à dificuldade do diagnóstico e ao retardo na introdução
da dieta
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