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NEUROGLUTEN - MUITO ALEM DA GASTROENTEROLOGIA

 

Dr. Hélio Borges*

Psiquiatra

 

Criança de 2 anos. Após dois meses de sintomas gastrointestinais como vômito, distensão abdominal, desnutrição e perda de peso, apresentou súbita recusa de andar e perda dos reflexos profundos. Instalou-se um quadro fulminante de neuropatia paralítica aguda, a temível síndrome de Guillian-Barré. Nesta patologia terrível com elevado grau de fatalidade o sistema imune, numa resposta aberrante, se volta contra os nervos periféricos e raízes espinhais. Associado a isto estava o grave estado de desnutrição em que a criança se encontrava. O tratamento padrão com infusão de imunoglobulinas foi instituído e resultou numa melhora parcial e temporária. Uma recaída levou a exames mais minuciosos que evidenciaram anticorpos contra a proteína central do glúten 16 vezes o normal. A criança começou uma dieta sem glúten, o que levou à recuperação completa da neuropatia periférica, caminhada, reflexos e melhora geral após três meses. ​

 

A síndrome de Guillain-Barré ocorre por uma infeliz coincidência entre uma suscetibilidade individual e a resposta do organismo à exposição a um microrganismo invasor como o “Campylobacter jejuni” ou o zika vírus. Pelo fenômeno mimetismo molecular (semelhança entre trechos proteicos), o hospedeiro gera uma resposta imunitária a um organismo infeccioso que partilha um epítopo do tipo gangliosídeo com o sistema nervoso periférico do hospedeiro. O dramático caso narrado acima ilustra não só uma consequência da desnutrição que levou a um problema neurológico, mas uma grave resposta autoimune pela exposição não a um microrganismo, mas à tão falada proteína de origem vegetal, o glúten. ​

 

Por muitos anos, décadas, a medicina teve um entendimento que a reação ao glúten era uma patologia do domínio da pediatria chamada de “espru celíaco”, na qual uma criança sensível a esta proteína vegetal apresentava como sintomas clássicos diarreias recorrentes e fétidas, abdômen distendido, desnutrição e deficiência do crescimento. Ou seja, algo do domínio da Gastroenterologia. ​

 

Cefaleia, opsoclonia-mioclonia, neurite óptica recorrente, encefalopatia aguda recorrente, estado epiléptico, hemiplegia transitória recorrente, trombose do seio venoso cerebral, mielite transversa. Diversas patologias neurológicas graves têm sido relatadas acometendo crianças por exposição ao glúten, com ou sem um quadro constituído de doença celíaca. ​

 

Veja, não estamos falando de uma resposta alérgica. Na alergia outros mecanismos imunes são envolvidos, a reação pode ser desde urticárias ao fatal edema de glote. Na alergia, ao reagir ao agente alergênico, o corpo apresenta uma resposta que difere em severidade mas é voltada para repelir o alérgeno. Na patologia autoimune o corpo se volta contra os próprios tecidos memorizando esta hostilidade e o atacando incessantemente. ​

 

Mas qual é a do glúten? Uma proteína abundante em parentes avançados da grama como o trigo, o centeio e a cevada, que é capaz de confundir o sistema imunológico que percebe um alimento como um micro-organismo invasor e que rapidamente começa a considerar nossas células como “parte da conspiração”. ​

 

Dr. Willem-Karel Dicke, pediatra holandês, é nosso primeiro grande herói. A escassez de pão durante a 2ª. Guerra Mundial foi a chave para que este médico, nos anos 50, descobrisse que a grave diarreia que acometia crianças era produzida pelo consumo do mais inocente dos alimentos à época: o pão. ​

 

Outro herói moderno é o Dr. Alessio Fasano, pediatra gastroenterologista italiano, nos anos 90, perseguindo um fármaco para tratar a mortífera infecção diarreica chamada “cólera”. O vibrião do cólera faz intestino abrir sua permeabilidade por secretar uma toxina que copia a ação de uma substância própria da atividade intestinal chamada zonulina. O vibrião engana as células intestinais como se elas mesmas estivessem secretando a tal zonulina e abre suas junções, permitindo a entrada do agressor. Malicioso mecanismo de agressão, resultado de milhares de anos de evolução do patógeno. Mas nesta descoberta ele se depara com algo inesperado: a gliadina do trigo mimetiza o mesmo mecanismo.

 

Como a natureza evoluiu a ponto de uma proteína que protege o grão de um vegetal ter capacidade de invadir um intestino (de todos) e nos suscetíveis ativar uma forte resposta autoimune? Nos primórdios não houve com certeza uma convenção entre os vibriões do cólera e os grãos de trigo. Na luta pela sobrevivência, os dois organismo completamente distintos acharam respostas adaptativas semelhantes. Um para atacar e invadir. O outro para se defender. ​

 

Hoje sabemos que além do glúten, outras substâncias que protegem grãos de cereais e leguminosas têm certa ação agressiva contra nosso corpo visto que a planta luta com o que tiver para desestimular que algum animal consuma suas sementes. Mas nada se compara a força destrutiva do glúten! Dr. Fasano, não apenas demonstrou com um dos mais antigos inimigos da humanidade (populações inteiras foram vítimas do cólera) agia. Explicou como a agressão do glúten se iniciava. Descoberta que iria encher de admiração o descobridor do “alimento-vilão” o Dr. Willem-Karel Dicke, se ainda estivesse vivo. Este morreu em 1962 de um AVC. ​ Pela primeira vez se mostra com clareza uma molécula de ação imunogênica originadora de uma doença autoimune que é a doença celíaca. Nesta, o próprio intestino, por ter englobado partes da proteína do glúten, passa a sofrer o ataque autoimune. ​

 

Mas o “pulo-do-gato” dessa história toda nem é esta curiosa e destrutiva capacidade do glúten. Mas os fortes indícios de que talvez todas as centenas de doenças autoimunes conhecidas tenham como base uma confusão na barreira intestinal entre o que deve e não deve ser absorvido e reação imune e inflamatória do corpo para lidar com isto. ​ ​

 

A confusão na barreira intestinal entre

o que deve e não deve ser absorvido

e a reação imune e inflamatória do

corpo para lidar com isto. ​

 

Ao se deparar com o alimento o intestino tem um importante papel no sistema imunológico ao eliminar patógenos contaminantes e manter bem separado o que é da natureza e chegou ingerido (as proteínas externas) e o que é do próprio corpo (nossa identidade imunológica dada pelas proteínas internas). Havendo confusão quanto a isto, o corpo se confunde quanto aos próprios tecidos e a passagem inadequada de fragmentos e elementos da própria flora intestinal passam a ser ameaçadores. ​ Hoje sabemos que o fenômeno “intestino permeável” pode ser produzido por fatores como estresse, sobrecarga física, exposição a certos agrotóxicos e conservantes, desregulação patológica da flora intestinal (disbiose). Mas o papel do glúten nisto é indiscutível. ​

 

O Dr. Fasano evoluiu nas conclusões de suas pesquisas e mais descobertas estão por vir. Através destas, o medicamento Larazotide foi sintetizado artificialmente para ser um antídoto contra a ação tóxica de liberação descontrolada da zonulina e permeabilidade intestinal aumentada, podendo vir a ser de grande valia no tratamento das doenças autoimunes. ​

 

O NEUROGLUTEN ​

 

O termo foi utilizado pela primeira vez em um artigo de revisão produzido pelo Serviço de Neurologia de Astúrias na Espanha, em 2011. Quase 100 publicações foram revisadas enumerando grande parte dos casos clínicos onde a reatividade imunológica ao glúten esteve envolvida. ​

 

A percepção de que o sistema nervoso pode adoecer pelo consumo de glúten não é nova. Um artigo de 1966 publicado na Revista Brain intitulado “Neurologic Disorders Associated With Adult Celiac Disease” foi o primeiro que se tem notícia. Neste estudo, 16 pacientes adultos com desordens neurológicas e doença celíaca foram relatados. Dez pacientes tinham severa neuropatia e todos haviam desenvolvido ataxia. Mas nesta perspectiva inicial estava o transtorno neurológico a reboque das complicações da diarreia celíaca e o estado desnutritivo. ​

 

A ataxia associada ao glúten, transtorno onde o indivíduo perde por completo o equilíbrio, ficando incapaz de ficar em pé, foi o primeiro quadro neurológico tipificado não como consequência da doença celíaca, mas uma condição autoimune onde anticorpos se formam contra outra parte do corpo que não o intestino – a reação é contra as células do cerebelo. Quando o quadro se desencadeia, em poucos meses estes pacientes têm seu cerebelo destruído pelos próprios anticorpos, sem possibilidade de regeneração. ​

 

Esta sensibilização direta do sistema nervoso pelo glúten foi apontada pelo médico inglês de origem indiana Marios Hadjivassiliou na década de 90 (a quem também devemos homenagens). Em seu artigo de 2002 intitulado “Sensibilidade ao Glúten como uma Doença Neurológica”, Hadjivassiliou começa dizendo “as manifestações neurológicas da sensibilidade ao glúten podem ocorrer sem envolvimento do intestino…” ​ Mas como esta proteína vegetal consegue ao mesmo tempo abrir as portas do intestino e sensibilizar nosso corpo contra ele mesmo? Bem, se sabe que as partículas do glúten são capazes de atravessar a barreira hematoencefálica. E sua extensa e imbricada molécula tem uma parte com ação citotóxica, outra imunomodulatória e outra que age como uma chave, ativando a tal zonulina. Enfim, um míssel bem elaborado! ​

 

Bem documentado pela equipe do pesquisador inglês, há evidências de uma reação cruzada entre porções do glúten e as células de Purkinge do cerebelo. A deposição de anticorpos antitransglutaminase tem sido encontrada em torno dos vasos cerebrais, principalmente em cerebelo e medula. Assim como para o intestino se encontram anticorpos contra a transglutaminase 2, foram descobertos os anticorpos contra a transglutaminase 6 e 3, específicas do sistema nervoso. ​ Recentemente foi demonstrado que o líquor de pacientes com ataxia de glúten injetado no ventrículo cerebral de cobaias produz nestas a mesma ataxia, comprovando ação lesiva do anticorpo antitransglutaminase 6 (TG6). ​

 

Inúmeros outros transtornos neuropsiquiátricos foram correlacionados ao glúten. Acometimentos causados por uma relação direta entre a identidade imunológica do glúten e semelhanças com tecidos nervosos? Consequência de uma cascata inflamatória excessiva que se origina no intestino pela penetração na corrente sanguínea de outras partículas além do glúten? ​ Já são bem documentadas estas patologias abaixo, que estão diretamente ligadas ao glúten:

• ataxia

• neuropatia

• enxaqueca

• epilepsia

• miopatia

• deficit de atenção

• deficit cognitivo

• neurite óptica

• ganglionopatia sensitiva. ​

 

Há forte indicadores que o glúten possa contribuir também para estas patologias:

• síndrome das pernas inquietas.

• esclerose múltipla.

• hiperatividade com deficit de atenção.

• síndrome da pessoa rígida.

• enfermidades vasculares.

• depressão.

• autismo.

• síndrome de Tourette.

• surtos psicóticos ou maníacos. ​

 

O desconhecimento desmedido da média da classe médica, os excessos interpretativos cometidos pela “cultura fitness” podem balançar a nau destes conhecimento que vem se acumulando sobre os malefícios do glúten. Porém, dada a gravidade do assunto, é fundamental todo empenho e receptividade, pois enquanto pesquisamos e pensamos, pessoas podem estar caminhando para (ou já sofrendo) com sintomas neurológicos complicados. Na dúvida, uma dieta sem glúten se não resolver ao menos não atrapalha um corpo já sofrente.

 

Artigos Fundamentais: ​

Hernandez-Lahoz C, Mauri-Capdevila G, Vega-Villar J, Rodrigo L (1 de septiembre de 2011). «Neurological disorders associated with gluten sensitivity» [Neurogluten: patología neurológica por intolerancia al gluten] Rev Neurol (Revisión) 53 (5): 287-300 ​

 

Hadjivassiliou M, Grünewald RA, Davies-Jones GAB Gluten sensitivity as a neurological illness Journal of Neurology, Neurosurgery & Psychiatry 2002;72:560-563. W. T. COOKE, W. THOMAS SMITH; NEUROLOGICAL DISORDERS ASSOCIATED WITH ADULT CELIAC DISEASE, Brain, Volume 89, Issue 4, 1 December 1966, Pages 683–722

 

 

Escrito a convite do site “Rio Sem Glúten” em fevereiro de 2019.

 

 

* Meu nome é Hélio Borges, sou médico psiquiatra oriundo do Rio de Janeiro, com consultório em Maringá, no PR. Sou celíaco e pai de duas celíacas e conheço de perto as complicações do “Neurogluten” que felizmente soubemos contornar.

 

 

 

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                                                                                                                                Última atualização: 19 novembro, 2018