SURPRESAS DA DOENÇA
CELÍACA - ALESSIO FASANO
SCIENTIFIC AMERICAN
BRASIL – SET. 2009
CONCEITOS-CHAVE
• A Doença Celíaca (DC) é um
distúrbio autoimune
desencadeado pela ingestão de glúten, uma proteína
importante
no trigo, ou de proteínas similares em outros grãos.
• Pesquisas sobre as causas básicas indicam que o
distúrbio se desenvolve quando uma
pessoa exposta ao glúten tem também uma suscetibilidade
genética para a DC e uma
parede intestinal anormalmente
permeável.
• De modo surpreendente, essencialmente o mesmo trio -um
gatilho ambiental, uma predisposição genética e um
" intestino vulnerável" - parece
ser também a base
para outras
doenças autoimunes. Essa descoberta aumenta as
possibilidades de que novos tratamentos para a DC possam
também melhorar outros
distúrbios.
Os editores
Meu
voto para a revolução científica mais
importante de todos os tempos iria para o
Oriente Médio de l0 mil anos atrás, quando
se notou pela primeira vez que novas plantas se
originam de sementes caídas no chão a partir de outras
plantas - constatação que levou ao nascimento da agricultura. Antes
dessa observação, as pessoas
baseavam sua dieta em frutas, castanhas, tubérculos
e eventuais carnes. Tinham de se deslocar para onde
a comida estivesse, à mercê dos eventos, tornando impossíveis
planejamentos de longo prazo.
Ao descobrir o segredo das sementes, rapidamente
aprenderam a cultivar vegetais em casa e,
finalmente, a cruzar diferentes plantas gramíneas
para criar grãos fundamentais como trigo, centeio
e cevada, que eram nutritivos, versáteis, estocáveis
e valiosos para comercialização. Pela primeira
vez, as pessoas tiveram a chance de abandonar
a vida nomade e construir cidades. Não por coincidência,
as primeiras áreas agrícolas também se tornaram
"berços de civilização".
Esse avanço, entretanto, cobrou um
preço alto: o aparecimento de uma enfermidade agora conhecida como
Doença Celíaca (DC), induzida pela ingestão
de uma proteína do trigo chamada glúten, ou por
proteínas similares no centeio e na cevada. O glúten
e seus parentes não faziam parte antes da dieta humana.
Mas, uma vez que os grãos começaram a alimentar
as crescentes comunidades estáveis, as proteínas passaram também a matar
pessoas (frequentemente
crianças),
quando seus corpos reagiam de forma
anormal a elas. A ingestão repetida dessas proteínas
resultou em indivíduos sensíveis e
incapazes de absorver
adequadamente nutrientes dos alimentos. Essas vítimas também
sofreriam de dores abdominais
recorrentes e diarreia, exibindo corpos definhados e
barrigas inchadas de pessoas
famélicas. A nutrição
deficiente e várias de outras complicações tornaram
suas vidas
relativamente curtas e sofridas.
Se essas mortes fossem noticiadas na época, sua
causa teria sido um mistério. Nos últimos 20 anos.
entretanto, os cientistas vêm sistematizando o conhecimento
detalhado da DC. Agora sabem que é um
distúrbio autoimune, onde o sistema imunológico
ataca os tecidos do próprio organismo. E sabem que
a doença surge não apenas do consumo do glúten e de seus
congeneres, mas também de uma combinação
de fatores que incluem genes predisponentes e anomalias na estrutura do
intestino delgado.
Além disso, a DC proporciona um exemplo ilustrativo
do modo como uma tríade - um indutor
ambiental, genes suscetíveis e uma anomalia intestinal
- pode exercer um papel em muitos distúrbios
autoimunes. As pesquisas sobre DC
têm então sugerido novos
tipos de tratamento não apenas para a
doença em si, mas
também para várias outras condições
autoimunes, como diabetes tipo I, esclerose múltipla e artrite
reumatoide.
Revelações Iniciais
Após o advento da
agricultura, milhares de anos se
passaram antes que casos de crianças aparentemente
bem alimentadas, mas subnutridas, fossem documentados.
A Doença Celíaca recebeu um nome no
primeiro século d.C., quando Areateus da Capadócia,
médico grego, relatou a primeira descrição científica,
chamando-a koiliakos, a partir da palavra grega
para abdome, koelia. O médico britânico Samuel
Gee é creditado como o moderno pai da DC. Em
palestra de 1887 ele a descreveu como "um tipo de
indigestão crônica encontrada em pessoas de todas
as idades, ainda que seja especialmente apta a afetar
crianças entre l e 5 anos". Ele suspeitou corretamente que "erros da
dieta possam ser talvez uma causa".
Mas a verdadeira natureza da doença escapou até de
sua perspicácia, como ficava claro em sua prescrição
dietética: alimentar essas crianças com fatias finas de
pão e tostadas em ambos os lados.
A
identificação do gúten como causa da doença ocorreu após a Segunda
Guerra Mundial, quando o
pediatra holandês Willem-Karel Dicke relatou que o
racionamento de pão na Holanda em razão da guerra
provocou uma queda significativa nos índices de mortalidade entre as
crianças afetadas pela DC - de
mais de 35% a praticamente zero. Ele também relatou
que, quando o trigo voltou a estar disponível
após o conflito, os índices de mortalidade retornaram
aos níveis prévios. Baseando-se no relato de Dicke,
outros cientistas analisaram os diferentes componentes
do trigo, descobrindo que a principal proteína
naquele grão, o glúten, era a culpada.
Focando-se nos efeitos biológicos do glúten, os
pesquisadores notaram que sua exposição repetida
em pacientes com D C faz com que as vilosidades -
estruturas do intestino delgado com formato de
dedos - tornem-se cronicamente inflamadas e danificadas,
incapazes de executar sua função normal:
quebrar as moléculas dos alimentos e absorver os
nutrientes, transportando-os através da parede intestinal
em direção à corrente sanguínea para que alcancem
todo o corpo. Felizmente, se a doença é diagnosticada
suficientemente cedo e o paciente orientado a seguir uma dieta sem
glúten, a arquitetura do intestino delgado quase sempre volta ao normal,
ou quase isso, e os sintomas gastrointestinais desaparecem.
Em uma pessoa suscetível, o glúten causa essa
inflamação e danos intestinais ao induzir a ativida-de
de várias células do sistema imunológico. Essas
células, por sua vez, danificam tecidos saudáveis na
tentativa de destruir o que elas avaliam ser um
agente infeccioso.
Uma Descoberta
Diagnostica
Maiores detalhes dos mecanismos
pêlos quais o glúten afeta a atividade imunológica ainda estão
sendo estudados, mas uma revelação específica já
provou sua utilidade no meio clínico: uma característica
da resposta imune aberrante ao glúten é a
produção de moléculas de anticorpos direcionadas
a uma enzima chamada transglutaminase tecidual.
Essa enzima vaza a partir de células danificadas em
áreas inflamadas do intestino delgado e tenta auxiliar
no reparo do tecido circundante.
A descoberta de que
esses anticorpos são comuns
na DC
adicionou uma nova ferramenta para diagnosticar o distúrbio e também
permitiu à minha equipe e a outros
pesquisadores avaliar a
incidência da doença com uma nova abordagem -
ao examinar pessoas com presença desses anticorpos no seu sangue. Antes
disso, os médicos faziam
apenas exames gerais e, por isso, o procedimento
mais confiável de diagnosticar a
doença era revisar os sintomas dos pacientes, confirmar a inflamação
intestinal por uma biopsia
do intestino e verificar que
uma dieta sem glúten aliviaria os sintomas.
(Procurar por anticorpos contra o
glúten não define o
diagnóstico, pois eles também podem aparecer
em pessoas sem DC.)
Durante anos a
DC foi considerada uma doença
rara fora da Europa. Na América do Norte, por
exemplo, os sintomas clássicos foram reconhecidos
em menos de uma em cada 10 mil pessoas. Em 2003
publicamos os resultados de nosso estudo - a maior
análise de pessoas com DC já conduzida na América
do Norte, envolvendo mais de 13 mil pessoas. De
modo aterrador, descobrimos que 1 em 133 indivíduos
aparentemente saudáveis era afetado, o que
significa uma doença cerca de cem vezes mais
comum do que se pensava. O trabalho de outros
pesquisadores confirmou níveis similares em muitos
países, em todos os continentes.
Como 99% dos
casos escaparam à detecção por tanto tempo? Os clássicos sinais externos
- indigestão
persistente e diarreia - aparecem apenas quando
regiões grandes e críticas do intestino estão inflamadas.
Se um pequeno segmento do intestino é disfuncional
ou se a inflamação é leve, os sintomas podem ser menos dramáticos ou
atípicos.
Também
está claro que a DC frequentemente se manifesta por vários sintomas
previamente desprezados,
que são provocados por distúrbios locais da
absorção de nutrientes do intestino. Alteração da
absorção de ferro, por exemplo, causa anemia, e a
ingestão deficiente de folato pode levar a uma série
de problemas neurológicos. Ao subtrair do corpo
nutrientes específicos, a DC pode então produzir sintomas
como os da osteoporose, dores articulares,
fadiga crônica, baixa estatura, lesões na pele, epilepsia,
demência, esquizofrenia e convulsões.
Porque a
DC frequentemente se apresenta de um
modo atípico, muitos casos ainda permanecem não
diagnosticados. Essa nova metodologia para reconhecer
a doença em todas as suas formas e em estágios
precoces permite que o glúten seja removido da
dieta antes
que complicações mais sérias se
desenvolvam.
Do Glúten à Disfunção Imunológica
A Doença Celíaca proporciona um modelo enormemente
valioso para a compreensão dos distúrbios
autoimunes, por ser o único exemplo em que a adição
ou a remoção de um simples componente
ambiental, o glúten, pode ligar ou
desligar o processo da
doença. (Embora fatores ambientais sejam suspeitos de exercer papéis em
outras doenças autoimunes,
nenhum foi positivamente identificado.) Para ver como o glúten
pode ter um efeito devastador em algumas pessoas, consideremos
como o corpo responde a ele na
maioria da população.
Naqueles sem DC, o corpo não reage. O sistema
imunológico normal entra em ação apenas quando detecta níveis
significativos de proteínas estranhas no corpo, reagindo agressivamente
porque os forasteiros podem sinalizar a chegada de microrganismos
causadores de doenças, como
bactérias ou vírus.
Um modo específico de encontrarmos proteínas
mestranhas
e outras substâncias é pela alimentação,
e os soldados imunológicos se posicionam sob as
células epiteliais que revestem o intestino (enterócitos),
prontos para atacar e pedir reforços. Uma
razão pela qual nosso sistema imunológico não é
estimulado por essa invasão de proteínas três vezes
ao dia é que, antes que nossas defesas encontrem
algo que poderia trazer problemas a elas, nosso
sistema
gastrointestinal geralmente quebra a maioria
das proteínas ingeridas em aminoácidos padronizados
- os blocos de construção a partir dos quais
as proteínas são construídas.
O glúten,
entretanto, tem uma estrutura peculiar: de modo incomum, é rico em
aminoácidos glutamina
e prolina. Essa propriedade mantém parte da
molécula impenetrável ao nosso
sistema de despedaçamento
de proteínas, deixando pequenos fragmentos
proteicos, ou peptídeos, intactos. Assim, em pessoas
saudáveis, a maioria desses peptídeos fica armazenada
no trato gastrointestinal e é simplesmente
excretada antes que o sistema imune
sequer os note. E qualquer
partícula de glúten que se esgueira através
do epitélio gastrointestinal é geralmente muito
pequena para suscitar uma resposta
significativa de
um sistema imune normal.
Os pacientes com DC, porém, herdaram uma
série de genes que contribuem para
uma sensibilidade
imunológica exacerbada ao glúten. Por exemplo,
certas variações de genes
codificadores de proteínas conhecidas como antígenos de
histocompatibilidade
leucocitária (HLAs) têm um papel. Noventa e cinco
por cento das pessoas com DC têm o
gene HLA DQ2 ou o DQ8,
enquanto apenas 30% a 40% da população
geral têm uma das duas versões. Este e outros
achados sugerem que o HLA DQ2 e o
DQ8 não são a única causa da
hiperatividade imunológica, mas
que a doença, apesar disso, é
virtualmente impossível de
se estabelecer sem um deles. A razão pela qual
esses genes são importantes fica
óbvia por estudos da função das proteínas que eles especificam.
As proteínas
HLA DQ2 e DQ8 são feitas por células
apresentadoras de antígenos. Essas sentinelas imunológicas
atacam organismos e proteínas externos,
despedaçam-nos, encaixam fragmentos protéicos
selecionados em cavidades nas moléculas de HLA, e
expõem os complexos HLA-proteína resultantes na
superfície celular para reconhecimento por células do
sistema imune chamadas linfócitos T-helper. As células
T que podem reconhecer e se ligar aos complexos
expostos então chamam os reforços.
Em pacientes
com D C, a transglutaminase tecidual
liberada por células epiteliais intestinais se liga
ao glúten não digerido e modifica os peptídeos de um
modo que os capacita a se ligarem fortemente às proteínas
DQ2 e DQ8. Consequentemente, quando as células apresentadoras de
antígenos sob as células
epiteliais intestinais expõem os complexos de transglutaminase
tecidual e glúten, as células unem o glúten
aos HLAs e os enviam para a superfície celular,
onde eles ativam células T, induzindo-as a liberar
citocinas e quimiocinas (substâncias
químicas que
estimulam a atividade imunológica tardia). Essas
substâncias químicas e o aumento das defesas imunes
seriam valiosos em face de um ataque de microorganismos,
mas nesse caso não são adequados e
lesionam as células intestinais responsáveis pela
absorção de nutrientes.
Os pacientes
com DC também tendem a ter outras
predisposições genéticas, como a propensão à superprodução do
estimulante imunológico IL-15
e por abrigar células imunológicas hiperativas que
preparam o sistema imune a atacar o intestino em
resposta ao glúten.
Culpado por Associação
Que papel podem cumprir os
anticorpos contra a
transglutaminase tecidual nessa resposta patológica
ao glúten? A resposta ainda está incompleta, mas os
cientistas têm alguma ideia sobre o que poderia
acontecer. Quando as células epiteliais intestinais secretam
transglutaminase tecidual, as células B do sistema
imune a ingerem - isoladas ou associadas ao glúten. Elas
então secretam anticorpos direcionados à enzima.
Se os anticorpos se dirigem para a transglutaminase
tecidual depositada ou próxima às células epiteliais
intestinais, os anticorpos poderiam danificar as
células diretamente ou provocar outros processos
destrutivos. Mas ninguém ainda sabe se eles, de fato,
causam essa destruição.
Nos últimos nove anos meus colegas e eu aprendemos que a
permeabilidade intestinal alterada também
parece participar da DC e de outras doenças
autoimunes. Com certeza, um crescente grupo de
evidências sugere que virtualmente o mesmo trio de fatores
dá base à maioria das, e talvez a todas, as doenças
autoimunes: uma substância ambiental apresentada
ao organismo, uma tendência genética do sistema
imune a reagir de modo exacerbado a essa substância
e um intestino alteradamente permeável.
Encontrando o Ponto Fraco
E justo dizer que inicialmente
foi recebida com certo ceticismo a teoria de que um intestino
vulnerável
contribui para a DC e doenças autoimunes em
geral, em parte por causa da maneira como os cientistas
analisam o intestino. Quando eu era estudante de medicina nos anos 70,
o intestino delgado era
descrito como um cano composto de uma única
camada de células, comparadas a ladrilhos fixados
com aplicações de um "cimento" impermeável,
chamadas de complexos juncionais intercelulares.
Pensava-se que as junções mantinham tudo, exceto
as pequenas moléculas, distante dos componentes
do sistema imune no tecido subjacente aos tubos.
Esse modelo simples das junções como um rejunte inerte e
impermeável não inspirava legiões de pesquisadores a estudar sua
estrutura, e eu estava entre
os não entusiasmados.
Foi somente uma mudança de rumo inesperada, e
um dos momentos mais desapontadores de minha
carreira, que me levou ao estudo das junções. No final
dos anos 80 eu estava trabalhando em uma vacina
contra a cólera. Naquele tempo, acreditava-se que a
toxina colérica seria a única causa da devastadora
diarreia característica daquela infecção.
Para
testar
A descoberta da zonulina nos
induziu a analisar a literatura médica para distúrbios humanos caracterizados
pela permeabilidade intestinal aumentada.
Foi então que observamos, para minha surpresa,
que muitas doenças autoimunes - entre as quais a DC, diabetes tipo I,
esclerose múltipla, artrite reumatoide
e doenças inflamatórias intestinais - têm
como
denominador comum a permeabilidade
intestinal aberrante. Em muitas dessas doenças, o
aumento da permeabilidade é causado
por níveis anormalmente
elevados da zonulina. E, na DC, está
claro agora que o próprio
glúten estimula a secreção
exagerada de zonulina (talvez por causa da
composição genética
do paciente).
Essa
descoberta nos levou a propor que é a permeabilidade
intestinal, aumentada nos pacientes com
DC, que permite ao glúten, o fator ambiental, escapar
do intestino e interagir livremente com elementos
geneticamente sensibilizados do sistema imunológico.
Esse mecanismo, por si, sugere que remover qualquer
fator da trindade causadora da alteração auto-imune
- o gatilho ambiental, a reatividade imunológica
elevada ou a permeabilidade intestinal - seria
suficiente para interromper o
processo da doença.
Terapias para Derrubar a Trindade
Como mencionei
antes, e como essa teoria prevê, a
remoção do glúten da dieta termina por sanar o
dano intestinal. Infelizmente, manter uma dieta estritamente
livre de glúten a longo prazo não é fácil. O
glúten é um item comum e, em muitos países, um
ingrediente não citado na dieta humana. Além da
aderência complicada, produtos sem glúten são
menos disponíveis e mais caros que suas contrapartidas.
Além disso, aderir perfeitamente durante anos
a qualquer dieta para propósitos médicos é notoriamente
desafiador. Por essas razões, a terapia dietética é uma solução
incompleta.
Consequentemente,
consideraram-se várias
estratégias terapêuticas alternativas que bloqueiem
pelo menos um dos elementos do processo triplo.
A Alvine Pharmaceuticals, em San Carlos, Califórnia,
desenvolveu terapias orais proteico-enzimáticas que quebram
completamente os peptídeos do
glúten normalmente resistentes ao processo digestivo, e
tem um agente em estudos clínicos. Outros
pesquisadores
consideram meios para inibir a
transglutaminase tecidual, de modo que ela não
modifique
quimicamente os fragmentos de glúten, não digeridos na forma em que eles
se ligam efetivamente às proteínas HLA DQ2 e DQ8.
Ninguém ainda sugeriu maneiras seguras e éticas
de manipular os genes que tornam as pessoas
suscetíveis à doença. Mas pesquisadores se ocupam
em desenvolver terapias que possam desestimular alguns
dos fatores geneticamente controlados que
contribuem para a hipersensibilidade do sistema imune.
Por exemplo, a empresa australiana Nex-pep
está trabalhando em uma vacina que exporia o sistema imune a pequenas
porções de glúten fortemente
imunogênicas, na premissa de que exposições
pequenas e repetidas definitivamente induziriam o sistema imune a
tolerar o glúten.
Visando
combater o defeito da barreira intestinal,
eu ajudei a fundar a Alba Therapeutics para explorar
o potencial de um inibidor da zonulina chamado
Larazotide. (Atualmente, sou consultor científico
e acionista da Alba, mas não participo mais da
formulação de decisões da companhia.) O Larazotide
foi testado em dois estudos humanos para avaliar
sua segurança, tolerabilidade e sinais de eficácia
em pacientes celíacos que comem glúten. Esses
foram estudos de padrão-ouro - testes aleatórios e
controlados com placebo, nos quais nem os pesquisadores
que prescrevem as drogas nem os pacientes
sabem quem recebe a droga e quem recebe o placebo,
até que o estudo se encerre.
Juntos, os testes não registraram excesso de efeitos colaterais em
pacientes que receberam o Larazotide,
em comparação aos que receberam o placebo.
E o mais importante: o primeiro e menor estudo demonstrou
que o agente reduziu a disfunção da
barreira intestinal induzida pelo glúten, a produção
de moléculas inflamatórias e sintomas gastrointestinais
em pacientes celíacos. E o segundo e maior
estudo, relatado em uma palestra em abril, mostrou
que os pacientes com DC que receberam placebo produziram anticorpos
contra a transglutaminase
tecidual, mas o grupo tratado não o fez. Até
onde sei, esse resultado marca a primeira vez que
uma droga interrompeu um processo autoimune,
interferindo especificamente em uma resposta imunológica
contra uma molécula produzida pelo corpo.
Outras drogas que suprimem a atividade imunológica
atuam menos especificamente. Recentemente,
a Alba recebeu aprovação da FDA para
expandir os estudos do Larazotide para outros distúrbios
autoimunes, incluindo diabetes tipo I e
doença de Crohn.
Essas
novas perspectivas terapêuticas não significam
que os pacientes com DC podem abandonar
as restrições alimentares a qualquer momento. A
dieta
poderia também ser usada de uma nova
maneira. Sob a liderança de Cario Catassi, minha
equipe na University of Maryland
iniciou um estudo clínico de
longa duração para testar se bebes em
alto risco, não comendo nada que
contenha glúten até depois de
seu primeiro ano, podem ter atrasada
a instalação da D C ou, melhor
ainda, preveni-la
inteiramente. "Alto risco", nesse caso, significa
bebes com genes suscetíveis e seus
familiares mais
próximos com histórico do distúrbio.
Suspeitamos que a
abordagem pudesse funcionar,
porque o sistema imune amadurece dramaticamente
nos primeiros 12 meses de vida e porque
pesquisas com bebes suscetíveis mostraram que
evitar o glúten durante essa fase desenvolve o sistema
imune para tolerar o glúten nos anos seguintes,
como fazem as pessoas saudáveis, em vez de
serem hiperestimuladas por ele. Até agora, mais
de 700 crianças geneticamente potencialmente
suscetíveis participaram desse estudo, e conclusões
preliminares sugerem que retardar o consumo
de glúten reduz em quatro vezes a probabilidade do desenvolvimento da
DC. Serão necessárias
décadas, entretanto, até sabermos com certeza
se essa estratégia pode impedir o próprio aparecimento
da doença.
Considerando a base
aparentemente comum
entre os distúrbios autoimunes em geral, pesquisadores
dessas condições estão ansiosos para verificar se
algumas estratégias terapêuticas para a DC
poderiam
também ser úteis para outras doenças autoimunes atualmente sem bons
tratamentos disponíveis. E,
com várias abordagens diferentes na estratégia de
tratamento da DC, podemos esperar que essa doença,
atormentando a humanidade desde o início da
civilização, vive seu último século na Terra.
FATOS RÁPIDOS
-
Cerca de 1 % da população global
tem Doença Celíaca,
embora a maioria não saiba disso.
-
Mais de 2 milhões de pessoas nos EUA são atingidas pela
doença.
-
Alguns sintomas comuns em bebes e crianças são dores
abdominais, inchaço, obstipação,
diarreia, perda de peso e
vômitos.
-
Cerca de metade dos adultos com o distúrbio não sofrem de
diarréia no diagnóstico.
- Outros sinais que podem ocorrer
em adultos são: anemia, artrite,
perda de massa óssea, depressão,
fadiga, infertilidade, dores articulares, convulsões e
entorpecimento nas mãos e pés.
Leia a reportagem na
íntegra ( são 17 páginas no site da Revista ):
surpresas_da_doenca_celiaca.html