Atualização
– Doença celíaca
Doença
freqüente, às vezes silenciosa, deve ser pesquisada e tratada.
Autores:
Adriana
Sevá Pereira / Rogério
Antunes Pereira Filho
http://www.sgnsp.org.br/artigos.php?id=21
1.
Introdução
A
doença celíaca (DC) é um distúrbio imune-mediado que afeta
principalmente o trato gastrointestinal. É caracterizada pela
inflamação crônica da mucosa do intestino delgado que pode resultar na
atrofia das vilosidades intestinais, com conseqüente malabsorção
intestinal e suas manifestações clínicas. Estas podem se iniciar na
infância ou na vida adulta e os sintomas intestinais clássicos são
diarréia, distensão e dor abdominal.
Até
recentemente a DC foi considerada uma doença rara nas populações.
Estudos sugerem que sua prevalência é muito maior do que as estimativas
anteriores, possivelmente afetando 1% da população, o que indica que a
doença deve estar sendo subdiagnosticada. A identificação recente dos
auto-antígenos envolvidos na DC conduziu ao desenvolvimento de novos
testes sorológicos para o diagnóstico, os quais permitem identificar
muitos indivíduos sem a sintomatologia clássica gastrointestinal.
Na
última década, muitas organizações fizeram revisões sistemáticas,
estabeleceram regras e consensos a fim melhorar a consciência, o
diagnóstico, e a conduta na DC.
2.
Definições
Doença
Celíaca (DC), conhecida também
como sprue celíaco, enteropatia glúten induzida, ou sprue não tropical
é uma enteropatia que afeta o intestino delgado de crianças e adultos
geneticamente predispostos, precipitada pela ingestão de alimentos
contendo glúten. A DC faz parte da doença por sensibilidade ao glúten
junto com dermatite herpetiforme (DH), nefropatia, artropatia e aftas
recorrentes.
Glúten
é uma mistura de proteínas
responsável pelas propriedades de panificação dos seguintes cereais:
trigo, centeio, cevada e aveia. As proteínas do glúten que são
solúveis em álcool são as prolaminas, entre as quais as gliadinas, mais
precisamente a alfa-gliadina, são as proteínas tóxicas para os
celíacos.
3.
Etiopatogenia
A
interação entre fatores genéticos (HLA e outros), ambientais (glúten)
e imunológicos celulares (linfócitos B) e humorais (linfócitos T)
resulta nas alterações intestinais típicas da DC.
Fatores
genéticos
A
susceptibilidade genética é sugerida pela alta associação entre os
indivíduos com DC e seus familiares em relação à prevalência e à
presença dos tipos de HLA (Quadro 1). Quanto mais próximos os
familiares, maior é a prevalência: 70% em gêmeos monozigóticos. 10% em
parentes de primeiro grau e 2,5% em de segundo grau, enquanto na
população geral é cerca de 1%.
A
prevalência em gêmeos idênticos não sendo 100% sugere que os genes HLA
são essenciais, mas não são os únicos genes requeridos para a doença
se manifestar. Estima-se que os genes de HLA contribuem com
aproximadamente um terço da variação genética da doença. A DC é
associada com o HLA-DQ2 em 90 a 95% dos casos e com o HLA-DQ8 em 5 a 10%
dos casos. As populações que não têm DQ2, por exemplo, chineses e
japoneses, só apresentam DC nos indivíduos com DQ8.
Quadro
1. Riscos da predisposição genética.
|
Condições |
Risco |
|
População
geral |
1/100 |
|
Indivíduos
com HLA-DQ2 ou HLA-DQ8 |
1/5 |
|
Parentes
de primeiro-grau com HLA desconhecido |
1/10 |
|
Parentes
de primeiro grau com DQ2 ou DQ8+ |
1/3 |
|
Gêmeos
idênticos |
1/1,5 |
Fatores
ambientais
A
expressão de HLA é condição necessária, mas não suficiente para o
desenvolvimento da DC. O fator chave para o desenvolvimento de DC é a
ingestão de glúten. Não há DC sem ingestão de glúten.
Embora
a DC apareça em alguns casos após uma infecção intestinal, poderia
haver relação entre estas duas situações, mas ainda não se provou se
isto é importante.
Fatores
imunológicos
-
-
Linfócitos intra-epiteliais
(LIe)
Os
LIe são células T que, nos celíacos, apresentam receptores importantes
na manutenção da integridade epitelial por destruírem células
infectadas ou alteradas. Eles são marcadores precoces da DC e podem
identificar formas latentes da DC
-
-
Células T CD4
Na
lâmina própria do intestino delgado há células T CD4
glúten-específicas que, ao reconhecerem os peptídeos do glúten,
secretam interleucinas e fator de necrose tumoral, levando às
alterações da mucosa.
-
-
Resposta auto-imune
específica ao endomísio
A
DC está associada à resposta auto-imune altamente específica ao
endomísio, que faz parte da estrutura da matriz celular do tecido
conjuntivo do músculo liso, sendo que o antígeno endomisial foi
recentemente identificado como a transglutaminase tecidual (TGt) ou
transglutaminase 2. Esta enzima é responsável pela deaminação da
gliadina.
Os
auto-anticorpos anti-TGt podem bloquear a maturação do epitélio
intestinal o que explica o epitélio pouco diferenciado na DC.
Resumo
da etiopatogenia
A
gliadina, proteína do glúten, é deaminada pela TGt e é reconhecida
então pelas células apresentadoras de antígenos que carregam HLA-DQ2 ou
DQ8, provocando desse modo a reação auto-imune da DC. Como o glúten tem
papel indiscutível na inflamação e no dano tecidual imune-mediado, a DC
representa o único modelo de auto-imunidade em que, em contraste com as
outras doenças auto-imunes, uma associação genética forte com HLA-DQ2,
DQ8, ou ambos; uma resposta auto-imune humoral altamente específica
(anti-TGt); e, mais importante, o fator ambiental desencadeante (glúten)
foi identificado.
Marsh
em 1992 descreveu a resposta
intestinal ao glúten através de cinco lesões relacionadas no quadro
3 (pré-infiltrativa, infiltrativa, hiperplásica, destrutiva, e
hipoplástica) que são interpretáveis como respostas imunológicas
mediadas por células da lâmina própria, onde há processos
inflamatórios antígeno-específicos).
4.
Epidemiologia
Os
avanços na compreensão da natureza múltipla da DC e da identificação
de testes sorológicos sensíveis conduziram ao reconhecimento que a DC é
muito mais comum do que pensaram previamente. Os estudos de população
usando várias combinações de testes sorológicos e da biópsia do
intestino delgado sugerem que a prevalência da DC é de 0,5 a 1%, tanto
nos EUA como na Europa. Estas prevalências incluem indivíduos
sintomáticos e assintomáticos.
Determinados
grupos têm prevalência aumentada da DC. Os parentes de primeiro grau dos
indivíduos com biópsia mostrando atrofia vilosa para DC têm
prevalência entre 4 e 12 %. Os parentes de segundo grau parecem também
ter prevalência aumentada, embora este seja definido somente pela
sorologia. Pessoas com diabetes melitus tipo 1 têm prevalência da DC
biópsia-confirmada que varia de 3 a 8 %. Os indivíduos com síndrome de
Down têm prevalência da DC entre 5 e 12 %. A DC é associada
também
com síndrome de Turner, síndrome de Williams, deficiência seletiva de
IgA e distúrbios auto-imunes.
Há
não muito tempo pensava-se que a DC era uma condição rara e que ocorria
somente nos caucasianos. A apresentação típica era de crianças com
perda de peso e diarréia.
Atualmente
sabe-se que:
-
•
A DC é comum e afeta de 1/100 a 1/300 da população adulta na maior
parte do mundo, com relação de duas mulheres para cada homem.
-
•
A DC ocorre freqüentemente sem sintomas gastrointestinais ou com
sintomas mínimos ou atípicos.
-
•
Os riscos são muito maiores nos parentes do primeiro-grau (até 10%)
do que em parentes de segundo grau, assim como nos diabéticos, nas
doenças auto-imunes e na síndrome de Down.
-
•
Na DC, alguns pacientes têm fertilidade afetada e a gravidez pode
evoluir desfavoravelmente especialmente em pacientes ainda sem
diagnóstico. O quadro clínico pode se agravar durante a gravidez ou
durante o puerpério em até 17% das mulheres com DC.
No
Brasil, dos poucos dados existentes, o estudo de doadores de sangue
saudáveis apresentou DC não diagnosticada em 1/681 (Gandolfi et al,
2000), revelando que também não é rara por aqui.
A
imagem do iceberg idealizada por Richard Logan em 1991 significa que a
prevalência é o total do iceberg, enquanto tudo que está abaixo do
nível da água representa o número total de casos não diagnosticados em
uma dada população em um dado momento, enquanto a ponta do iceberg,
acima do nível da água, representa o número de casos diagnosticados e
que é muito menor do que os não diagnosticados. O tamanho total do
iceberg é mais ou menos o mesmo em todas as populações, mas o
"nível da água" pode diferir de continente a continente. Este
nível depende da consciência que a DC existe, da disponibilidade de
recursos diagnósticos e das variações da manifestação clínica
(latentes, silenciosos, assintomáticos). A relação de casos de DC
diagnosticados com não diagnosticados na Europa é ao redor 5/1 a 13/1,
mas o iceberg parece estar mais submergido nos EUA, onde há menor número
de diagnósticos.
5.
Quadro clínico
A
DC tradicionalmente era definida como malabsorção intestinal com início
na infância algum tempo após a introdução do glúten na dieta.
Reconhece-se agora, entretanto, que as manifestações clínicas são
altamente variáveis, podendo se apresentar em todas as idades, e envolvem
múltiplos órgãos.
5.1.
Manifestações clínicas
As
manifestações gastrointestinais podem incluir a diarréia, perda
de peso, deficiência de crescimento, dor, gases e distensão abdominal,
anorexia, constipação e vômitos. A presença de obesidade não exclui o
diagnóstico. Em adultos o sintoma mais comum é a diarréia crônica,
além de perda de peso e distensão abdominal. Em crianças os sintomas
são: atraso de crescimento, baixo peso, baixa estatura, vômitos,
diarréia, dor abdominal recorrente, fraqueza muscular, intestino
irritável, hipoproteinemia, irritabilidade e apatia.
É
muito comum que a DC se apresente com manifestações extra-intestinais,
às vezes com quase nenhum sintoma gastrointestinal, por exemplo,
fraqueza, mal-estar, neuropatia periférica, deficiência de ácido
fólico, osteoporose. A DH é um rash intensamente pruriginoso nas
superfícies extensoras das extremidades. A anemia por deficiência do
ferro é comum e pode ser o único sinal. Outras apresentações sem
explicações, puberdade atrasada, infertilidade, abortos recorrentes,
osteoporose, deficiências vitamínicas, fadiga, desnutrição, estomatite
aftosa recorrente, transaminases elevadas, e hipoplasia do esmalte dental.
A DC pode também ser associada com distúrbio endócrino auto-imune, como
a tireoidite. Além disto, uma variedade de condições
neuropsiquiátricas tais como a depressão, a ansiedade, a neuropatia
periférica, a ataxia, a epilepsia com ou sem calcificações cerebrais, e
as dores de cabeça da enxaqueca foram relatadas nos indivíduos com DC.
Pensar
em DC nos casos de: deficiência não explicada de ácido fólico, de
ferro e de vitamina B12 ,
hipoalbuminemia, hipertransaminasemia não explicada, osteoporose,
osteomalácia, dor abdominal recorrente, erupções de pele.
5.2.
Classificação clínica da DC
DC
clássica
É
dominada por sintomas e por seqüelas da malabsorção gastrointestinal. O
diagnóstico é estabelecido pelos testes sorológicos, pela atrofia
vilosa evidente na biópsia e pela melhora dos sintomas com DIG.
DC
atípica
É
caracterizada por poucos ou por nenhum sintoma gastrointestinal, e as
manifestações extra-intestinais são predominantes. As características
atípicas da DC são a apresentação mais comum atualmente e são
responsáveis pelo aumento da prevalência. O diagnóstico é estabelecido
da mesma forma que na DC clássica
DC
silenciosa
Os
indivíduos são assintomáticos, mas com teste sorológico positivo e
atrofia vilosa na biópsia. Eles são detectados geralmente através da
triagem de indivíduos de alto risco ou pela realização de biópsia
duodenal em endoscopia com alterações sugestivas de DC.
DC
latente
É
definida por sorologia positiva, mas sem atrofia vilosa na biópsia. Estes
indivíduos são assintomáticos, porém mais tarde podem desenvolver
sintomas e/ou alterações histológicas.
6.
Diagnóstico da DC
O
passo mais importante no diagnóstico da DC é reconhecer o distúrbio e
suas múltiplas características clínicas. Não existe um teste único
que possa definitivamente diagnosticar ou excluir a DC. Assim como há um
espectro clínico da DC, o espectro também acontece nos achados
laboratoriais e histopatológicos. A biópsia intestinal junto com
sorologia positiva representa o padrão-ouro para o diagnóstico da DC.
A
primeira etapa são os testes sorológicos e os melhores disponíveis, por
terem sensibilidades e em especificidades muito elevadas, são o anticorpo
IgA ATGt e o anticorpo IgA AEm. Eles parecem ter acuidade diagnóstica
equivalente.
As
pesquisas do anticorpo antigliadina (AAG) não são mais recomendadas
porque têm sensibilidade e especificidade baixas. Uma indicação é a
avaliação da aderência à DIG.
6.1.
Anticorpos no diagnóstico da DC
Os
estudos sorológicos para a DC podem ser divididos em dois grupos,
baseados nos antígenos alvos: TGt e gliadina. (Quadro 2)
Quadro
2. Anticorpos na DC em relação aos antígenos-alvo.
|
Antígeno
alvo |
AG |
Anticorpo |
AC |
|
Auto-antígenos |
Transglutaminase
tecidual |
TGt |
IgA
Antitransglutaminase tecidual |
IgA
ATGt |
|
Endomísio |
Em |
IgA
Antiendomísio |
IgA
AEm |
|
Antígenos
ambientais |
Gliadina |
G |
IgA
Antigliadina
IgG
antigliadina |
IgA
AG
IgG
AG |
IgA
AEm
Anticorpos
IgA AEm se unem ao endomísio, produzindo um padrão característico
visualizado pela imunofluorescência indireta. O resultado de teste é
relatado simplesmente como positivo ou negativo, já que mesmo títulos
baixos de anticorpos IgA AEm são específicos para a DC. O antígeno alvo
foi identificado como TGt. O teste de anticorpo IgA AEm é moderadamente
sensível e altamente específico para DC (ativa) não tratada.
IgA
Anti-TGt
Os
anticorpos AEm são contra o antígeno TGt. O teste de IgA Anti-TGt é
altamente sensível e específico para o diagnóstico da DC. Testes ELISA
para anticorpos IgA anti-TGt estão disponíveis e são mais fáceis de
executar, menos dependentes do observador e mais baratos do que o método
da imunofluorescência usado detectar anticorpos IgA AEm. A exatidão
diagnóstica de métodos enzimáticos de IgA anti-TGt melhorou com o uso
do TGt humano no lugar das preparações não humanas do TGt usadas
anteriormente.
IgA-AAG
e IgG-AAG
A
gliadina, principal proteína do glúten, está disponível na forma
purificada e é usada como antígeno para os testes de ELISA detectarem
AAG do soro. Os níveis de AAG séricos são freqüentemente elevados em
DC não tratada, e foram usados por muitos anos como auxílio
diagnóstico. Embora estes testes demonstrem sensibilidade e
especificidade moderadas, seu valor preditivo positivo na população
geral é relativamente pobre. Os testes de AAG não são recomendados
rotineiramente, porque suas sensibilidade e especificidade são baixas,
levando a muitos resultados falsos, embora seja bom para seguimento porque
normaliza em 6 meses de DIG.
6.2.
Biópsia intestinal
A
DC afeta a mucosa do intestino delgado, com alterações mais evidentes no
delgado proximal, embora em casos graves as lesões possam ocorrer até no
íleo. O grau de alterações varia extremamente. Elas podem ser muito
leves em casos "silenciosos", com quase nenhuma anormalidade
histológica detectável no jejuno.
Coleta
do fragmento de biópsia
Apesar
de a biópsia por sucção (cápsula de Crosby) fornecer amostras melhores
de mucosa intestinal, a endoscopia é atualmente o método mais
conveniente para se colher os fragmentos. Devem ser feitas pelo menos 3
biópsias durante o exame endoscópico da segunda ou terceira porção do
duodeno, local em que as alterações já são evidentes. Importante é
esticar os fragmentos da mucosa em um pedaço de papel filtro de forma que
a superfície das vilosidades fique para cima. E o corte deve ser feito
perpendicularmente ao papel para que a altura da mucosa seja mais bem
avaliada. Ocasionalmente, as
alterações do duodeno e do jejuno podem ser focais, o que justifica
segunda biópsia em pacientes que tenham AAEm positivo. Entretanto, isto
só é feito se todas as três amostras da primeira biópsia mostrarem
histologia normal.
Características
histológicas de enteropatia celíaca
A
lesão começa com infiltração de linfócitos intra-epiteliais (LIe) em
quantidade maior que 30 para cada 100 enterócitos. Depois ocorre
hiperplasia da cripta, isto é, há um aumento na profundidade da cripta
sem redução na altura da vilosidade. Mais tarde ocorre atrofia das
vilosidades de forma parcial, subtotal e total. Esta é a lesão celíaca
clássica, mas não estabelece definitivamente o diagnóstico porque pode
também ser vista em giardíase grave, alergia alimentar, doença enxerto versus
hospedeiro, isquemia crônica do intestino delgado, sprue tropical e
deficiências imunológicas. A atrofia vilosa total pode ser considerada o
último estágio em um grupo muito pequeno dos pacientes que não responde
à DIG e que pode desenvolver complicações malignas. Pode haver
depósito de colágeno na mucosa e na submucosa (sprue colágeno,
distúrbio que pode estar relacionado à DC).
Apesar
de as alterações da mucosa estarem presentes, muitos indivíduos são
assintomáticos e conseqüentemente classificados como casos subclínicos
ou silenciosos.
O
relatório do patologista deve especificar o grau de hiperplasia das
criptas, a atrofia vilosa assim como avaliar o número de linfócitos
intra-epiteliais. Para a confirmação do diagnóstico de DC algum grau de
atrofia vilosa é necessário, então o encontro de linfócitos
intra-epiteliais com hiperplasia de cripta sem atrofia vilosa não é
definitivo. A padronização dos relatórios da patologia na DC é
desejável, usando critérios tais como os de Marsh (1992)
modificados por Oberhuber et al. (1999).
O
patologista e o clínico devem ser incentivados a correlacionar os
resultados da biópsia com os laboratoriais e as características
clínicas. Se houver discordância entre a interpretação da biópsia e
os marcadores sorológicos, ou os encontros clínicos, deve ser procurada
a segunda opinião na interpretação da biópsia.
Quadro
3. Classificação de Marsh das alterações histológicas do intestino
delgado na DC
O
anexo descreve a classificação das alterações histológicas
relativas à DC.
6.3.
Endoscopia digestiva alta
Embora
a endoscopia possa levar à indicação da biópsia intestinal, ela pode
não ser suficientemente sensível para detectar todos os casos de DC em
uma população. Os achados endoscópicos da DC estão descritos no quadro
4. e na figura 3.
Quadro
4. Achados endoscópicos da DC.
|
Padrão
da mucosa do tipo mosaico, com fissuras. |
|
Pregas
de Kerkring planas no duodeno descendente. |
|
Pregas
que diminuem de tamanho ou desaparecem com a insuflação máxima. |
|
Vasos
sanguíneos visíveis. |
|
Perda
de granulosidade. |
-
-
Figura 2. Aspectos
endoscópicos do duodeno na DC.
Mucosa
em padrão mosaico com pregas serrilhadas, mais evidentes após
coloração com índigo carmim.
Papel
do endoscopista na suspeita da DC
Embora
a endoscopia mostre alterações na DC (figura 2), os aspectos
endoscópicos não são suficientemente sensíveis, então, não se pode
confiar nela como um único procedimento diagnóstico para confirmar ou
excluir a DC. A atrofia da mucosa pode ser altamente sugestiva de DC, mas
em várias áreas do mundo há diversos diagnósticos diferenciais, por
exemplo, o sprue tropical, a desnutrição, a doença da cadeia alfa, etc.
Entretanto,
quando a endoscopia é solicitada por outras razões, o endoscopista deve
estar alerta e proceder à realização da biópsia duodenal.
O
quadro 5 tenta estabelecer uma seqüência para o diagnóstico de
DC.
Quadro
5. Cascata para diagnosticar a DC.
|
Auto-anticorpos
e endoscopia com biópsia intestinal (padrão ouro) |
|
Endoscopia
com biópsia intestinal |
|
Auto-anticorpos
AEm
ou anti-TGt ou ambos
ELISA |
|
Diagnóstico
baseado "em aspectos clínicos", com melhora após DIG |
Os
testes sorológicos são para encontrar casos e a biópsia é o padrão
ouro para o diagnóstico.
Com
resultados positivos concordantes da sorologia e da biópsia, um
diagnóstico presuntivo da DC pode ser feito. O diagnóstico definitivo é
confirmado quando os sintomas melhoram após a DIG (DIG). A demonstração
de normalização histológica com DIG não é mais requerida para o
diagnóstico definitivo da DC.
Em
um indivíduo com sintomas sugestivos e testes sorológicos negativos,
três cenários são possíveis. Primeiramente, o indivíduo pode ter
deficiência seletiva de IgA. Se a deficiência de IgA for identificada,
teste de IgG-ATGt ou de IgG-AEm deve ser executado. Em segundo, o teste
sorológico pode ser "um negativo falso". Neste caso o teste
poderia ser repetido e/ou a biópsia intestinal poderia ser feita. Em
terceiro lugar, o paciente pode não ter DC.
Em
sorologia positiva da DC e com resultados normais da biópsia, devem ser
recomendados: biópsia adicional do intestino, monitoração periódica
com testes sorológicos da DC ou teste com DIG.
6.4.
Tipagem de HLA
A
tipagem do HLA serve de marcador genético, sendo importante para detectar
familiares de DC.
Quando
o diagnóstico da DC é incerto por causa dos resultados indeterminados, o
teste para determinados marcadores genéticos (haplótipos de HLA) pode
estratificar indivíduos com risco alto ou baixo para a DC. Mais
exatamente 97% de indivíduos com DC têm o marcador DQ2 e/ou DQ8,
comparado a aproximadamente 40 % da população geral. Conseqüentemente,
é extremamente improvável um indivíduo negativo para DQ2 ou DQ8 ter DC
(valor preditivo altamente negativo).
6.5.
Malabsorção intestinal
A
atrofia das vilosidades intestinais característica da DC, produz como
conseqüência, malabsorção intestinal e suas manifestações clínicas.
A síndrome de malabsorção deve ser diagnosticada através de exames
especializados e tratada como descrito em Ferraz et al em 2004.
6.6.
Desafio com glúten
Atualmente
não se tem exigido que o desafio com glúten, ou re-teste, seja feito
para o diagnóstico de certeza.
A
resolução dos sintomas em DIG não é suficiente para diagnosticar a DC.
Para os indivíduos que foram colocados em uma DIG sem uma avaliação
diagnóstica apropriada, deve-se fazer o desafio do glúten. Para aqueles
que não querem se submeter um desafio do glúten, a ausência de DQ2 e
DQ8 na tipagem de HLA pode ajudar a excluir o diagnóstico.
6.7.
Diagnóstico diferencial
A
DC apresenta quadro clínico muito complexo e variado, e há muitas
doenças com as alterações de mucosa intestinal similares às da DC.
Quadro
6. Alterações mucosas similares àqueles na DC
|
Sprue
tropical |
|
Enteropatia
por HIV |
|
Estados
combinados de imunodeficiência |
|
Radiação |
|
Quimioterapia
recente |
|
Doença
de doador X hospedeiro |
|
Isquemia
crônica |
|
Giardíase |
|
Doença
de Crohn |
|
Gastroenterite
eosinofílica |
|
Síndrome
de Zollinger-Ellison |
|
Enteropatia
auto-imune |
|
Enteropatia
associada ao linfoma de células T |
|
Sprue
refratário |
|
Sprue
colágeno |
(os
últimos quatro são relacionados provavelmente à DC)
6.8.
Por que o diagnóstico da DC é difícil?
-
•
Diagnósticos errôneos (freqüentemente síndrome do intestino
irritável).
-
•
O quadro clínico pode se apresentar com poucos ou nenhum sintomas e
pode ter períodos latentes.
-
•
As crenças antigas em alguns mitos levam os clínicos a não pensarem
em DC, quando na realidade ela deve sempre ser lembrada. Exemplos de mitos
não verdadeiros: DC é rara, ocorre somente nos caucasianos,
principalmente na Europa e nos EUA, ocorre somente na infância e pode
ser curada após um período de tratamento.
7.
Associações e Complicações da DC
A
DC pode apresentar complicações graves quando não tratada. Isto
leva à certeza que a DIG deve ser rígida e permanente. As complicações
da DC ocorrem após muitos anos da doença e são observadas geralmente
nos adultos. A mortalidade por todas as causas na DC clinicamente
diagnosticada é aproximadamente duas vezes maior que a populações em
geral.
Quadro
7. DC não tratada tem risco elevado para:
|
Condições |
Risco |
|
Câncer
(1,3/1) |
1,3/1 |
|
Linfomas
malignos |
|
Neoplasia
do intestino delgado |
|
Tumores
de orofaringe |
|
Infertilidade
não explicada (12%) |
1/8 |
|
Osteoporose
(risco aumentado para pacientes com DC clássica). |
Doença
maligna
As
doenças malignas, principalmente o linfoma do delgado, são mais
freqüentes nos pacientes com DC clássica por muito tempo não tratada. A
DIG deve ser prescrita para proteger contra o desenvolvimento de doença
maligna. A maioria de estudos relata um risco aumentado do linfoma não
Hodgkin na DC, mas freqüentemente não o distinguem entre o linfoma
associado à DC clássica (linfoma associado a enteropatia de células T)
e outros subtipos. Ocorre principalmente nos pacientes diagnosticados
durante a vida adulta.
Há
um risco aumentado para adenocarcinoma do intestino delgado e de outros
locais do trato gastrointestinal: carcinoma do esôfago, carcinoma de
células escamosas da orofaringe.
Osteoporose
A
densitometria óssea deve ser feita na ocasião do diagnóstico da DC,
porque a densidade do osso é reduzida em adultos e em crianças com DC e
é mais grave na DC sintomática do que na forma silenciosa e está
associada com risco de fratura. A densidade mineral do osso melhora com a
DIG, mas à vezes não se normaliza.
Fertilidade
A
DC pode estar associada ao atraso da menarca, à menopausa prematura, à
amenorréia, aos abortos recorrentes e também a mãe com poucos filhos.
Mas nem sempre isto ocorre. Pacientes com DC podem ter bebês com baixo
peso ao nascimento, mortalidade perinatal aumentada e amamentação mais
curta. A aderência à DIG está associada melhores resultados. Além
disso, os homens com a doença tendem também a ter crianças com
gestação mais curta e pesos baixos ao nascimento.
A
DC pode manifestar-se clinicamente pela primeira vez durante a gravidez ou
no puerpério. Em alguns casos, o estudo da infertilidade, tanto em
mulheres como em homens pode levar ao diagnóstico de DC.
Distúrbios
auto-imunes
Os
distúrbios auto-imunes ocorrem dez vezes mais freqüentemente em
adulto com DC do que na população geral. Quando a doença auto-imune e a
DC são concomitantes, a DC é freqüentemente silenciosa, e
conseqüentemente o distúrbio auto-imune é diagnosticado antes.
Quadro
8. Distúrbios auto-imunes relacionados à DC
|
Diabetes
tipo 1 insulino-dependente |
|
Doença
da tireóide |
|
Síndrome
de Sjögren |
|
Doença
de Addison |
|
Doença
auto-imune do fígado |
|
Cardiomiopatia |
|
Distúrbios
neurológicos |
Dermatite
herpetiforme (DH)
A
DH é considerada uma manifestação cutânea da sensibilidade ao glúten.
Aparece como vesículas pruriginosas, geralmente nos cotovelos, joelhos e
nádegas. Geralmente não há sintomas digestivos, mas as alterações
histológicas são características da DC.
A
DH é diagnosticada pela biópsia da pele. É tratada com DIG e são
usadas medicações para controlar a dermatite, por exemplo, dapsona ou
sulfapiridina, por durante muitos anos. As
doenças tanto da pele quanto do intestino delgado são dependentes do
glúten e estão altamente associadas ao HLA-DQ, com diferenças não
genéticas para explicar os dois fenótipos.
DC
refratária
A
DC refratária é a persistência dos sintomas e da inflamação
intestinal apesar de DIG. Isto pode ocorrer no contexto da jejunite
ulcerativa, ou pode ser manifestação adiantada do linfoma intestinal.
8.
Conduta na DC
O
tratamento para a DC deve começar somente após avaliação diagnóstica
completa incluindo a sorologia e a biópsia. Considerar e tratar
deficiências vitamínicas e minerais, incluindo ferro, cálcio, fósforo,
folato, vitaminas lipossolúveis e B12. Os indivíduos com DC recentemente
diagnosticada devem submeter-se à seleção para a osteoporose dada a
ocorrência mais freqüente nesta população.
8.1.
Conduta
Alguns
autores elaboraram algoritmos para conduta e seguimento da DC, o que
inclui revisão com médico interessado em DC, aconselhamento com
nutricionista competente ou com o próprio médico e acesso a grupos de
apoio de DC. Como as situações são extremamente variáveis, não dá
para se estabelecer uma regra rígida de conduta. È necessário utilizar
as facilidades do momento e do local.
O
tratamento para a DC é DIG para toda a vida, quando é proibida a
ingestão de trigo, cevada, centeio e aveia.
Conduta
inicial:
-
•
Prescrever DIG. Para o correto seguimento da DIG, se não houver uma
nutricionista, o próprio médico deve instruir o paciente e a
família, deve ajudar a estabelecer o cardápio e também controlar a
dieta.
-
•
No caso de intolerância à lactose, utilizar dieta com baixo teor de
lactose (Sevá-Pereira, 2004).
-
•
A malabsorção intestinal deve ser diagnosticada e tratada como
descrito em Ferraz et al em 2004.
-
•
Pesquisar deficiências de ferro e de folatos e densitometria óssea
(em alguns casos).
-
•
Recomendar vitamina D e suplementação com cálcio na osteoporose.
-
•
Recomendar testes sorológicos para parentes de primeiro e de segundo
graus
-
•
Na possibilidade de existir grupo de apoio, sugerir que os pacientes e
seus familiares freqüentem as reuniões para trocar informações e
melhor evolução.
-
•
Os parentes devem ser ajudados para que sintam que eliminar o glúten
da dieta é a única possibilidade de melhora da DC e a supervisão
médica deve ser continuada.
A
maioria dos pacientes tem resposta clínica rápida à DIG, geralmente em
2 semanas, embora a taxa da resposta varie. Pacientes extremamente doentes
podem requerer internação, prescrição de líquidos e eletrólitos,
alimentação intravenosa, e, excepcionalmente esteróides.
8.2.
Dieta Isenta de Glúten (DIG)
O
tratamento eficaz para DC é DIG rigorosa para o resto da vida. Isto
significa nada de trigo, centeio, ou cevada. Com relação à aveia, ela
não é tóxica em 95% dos pacientes com DC ou DH, mas há um subgrupo
pequeno (< 5%) para quem a aveia não é segura. Quando este dado for
desconhecido, a aveia deverá fazer parte dos alimentos proibidos. Além
disto, há alguma relutância para recomendar o uso liberal da aveia por
causa da dificuldade em garantir que a aveia comercialmente disponível
esteja livre da contaminação com outros grãos. Considera-se que mesmo
quantidades pequenas de glúten podem ser prejudiciais. O
quadro 9 relaciona os alimentos não permitidos na DIG, enquanto o quadro
10 sugere tudo que é permitido, entre os quais: carnes, o peixe,
arroz, milho, frutas, vegetais em folha.
Quadro
9. Dieta isenta de glúten - Alimentos não permitidos (em nenhuma
quantidade)
|
trigo |
farinha
de trigo, pães, macarrão, farinha de rosca, bolos e biscoitos |
|
cevada |
farinha
de cevada, bala de cevada, cerveja |
|
centeio |
malte,
whisky (não há certeza se o whisky contém glúten) |
|
aveia |
farinha
de aveia |
|
Produtos
industrializados |
farinha
de cereais, Neston, Nescau, Ovomaltine, Farinha Láctea,
sopas,
pudins, leites enriquecidos com farinhas de cereais,
molhos
comprados prontos, café instantâneo |
|
Produtos
preparados com cereais não permitidos |
tortas,
bolinhos, empanados, fritos à milanesa,
molhos
com farinha de trigo, farofas, croquetes, pastéis |
|
Carnes
curtidas e em conservas |
salsicha,
presuntos, e todos os entrouxados: copa, salame, etc. |
|
Temperos |
Curry,
catchup, mostarda, maionese comercial |
|
Outros |
Frutas
secas: avelãs, nozes, frutas cristalizadas.
marzipan,
balas de cereais, chicletes |
|
Fermentos |
Fermentos
não produzidos no Brasil podem conter glúten |
NOTA:
Os produtos encontrados no mercado não são permitidos pela possível
adição de farinha dos cereais não permitidos. Na dúvida, não comer.
Quadro
10. Dieta isenta de glúten - Alimentos permitidos
|
Laticínios |
leite
e coalhada (se não houver malabsorção de lactose)
creme
de leite, queijos, coalhadas, manteiga, requeijão |
|
Ovos |
|
Carnes |
Vaca,
peixe, aves, suínos, etc |
|
Vegetais |
Verduras
Legumes
Frutas |
|
Cereais
e feculentos |
arroz,
farinha de arroz
milho,
farinha de milho, maizena, sagu, fubá, pipoca, milho verde.
mandioca,
mandioquinha, farinha de mandioca
batata,
fécula de batata
feijão,
ervilha, lentilha, grão de bico, soja, farinha de soja
pão,
bolos e biscoitos, feitos com cereais e feculentos permitidos. |
|
Outros |
gelatina,
sorvete, creme, manjar branco, pudim de arroz, quando preparados em
casa.
açúcar,
mel, melado, doces de frutas.
café
(desde que moído à vista do comprador) chá
suco
de frutas, chocolate, refrigerantes
óleos,
azeitona, maionese (pura, feita em casa) |
|
Fermentos |
fermento
em pó químico Royal e fermento biológico Fleishmann produzidos no
Brasil (informação do Engenheiro de Alimentos - Dr. Paulo Teruo
Matsura, diretor técnico da Fleishmann Royal, 1993). |
Desde
2003 há lei federal que obriga a que os produtos alimentícios
comercializados informem sobre a presença de glúten, como medida
preventiva e de controle da DC.
A
pessoa que faz as compras para o paciente deve prestar atenção aos
ingredientes estampados na embalagem e verificar se o produto tem escrito
"isento de glúten". Como a
DIG tem baixo conteúdo de fibra, deve-se recomendar aos pacientes que,
para aumentar o conteúdo de fibras, suplementem suas refeições com
arroz integral, batatas e vegetais.
Existem
inúmeros sites na Internet sobre DIG e receitas com alimentos
permitidos, além do anexo 1.
A
aderência à DIG deve ser exaustivamente explicada aos pacientes.
Aprender sobre a DC e como identificar produtos contendo glúten ajuda na
melhora. A participação em um grupo de apoio é também meio eficaz de
promover a sustentação emocional e social.
8.3.
Avaliação do tratamento
Pode-se
avaliar a resposta ao tratamento repetindo os testes sorológicos, mas
estes testes podem demorar até 1 ano para normalizar, especialmente nos
adultos, e podem não correlacionar com a melhora histológica. Os níveis
sorológicos elevados persistentes podem sugerir a falta de aderência a
DIG ou a ingestão não intencional do glúten. Os indivíduos que não
respondem a DIG requerem a reavaliação.
8.4.
Persistência dos sintomas
Uma
dificuldade comum com a DIG é a presença do glúten oculto em alimentos
e/ou em medicamentos (embora esta seja rara). A persistência dos sintomas
é causada quase sempre pela ingestão de glúten.
Outras
situações mais raras podem ocorrer para que os sintomas persistam no quadro
11.
Quadro
11. Razões para persistência dos sintomas apesar da DIG
|
Ingestão
(inadvertida) de glúten |
|
Diagnóstico
incorreto |
|
Intolerância
à lactose ou à frutose |
|
Outras
intolerâncias alimentares |
|
Insuficiência
pancreática |
|
Colite
microscópica |
|
Supercrescimento
bacteriano |
|
Colite
colágena ou sprue colágeno |
|
Síndrome
do intestino irritável |
|
Jejunite
ulcerativa |
|
Linfoma
de célula T associado a enteropatias |
|
DC
refratária |
Os
últimos três podem ser considerados como complicações de DC de longa
duração.
No
caso de supercrescimento bacteriano do intestino delgado, prescrever
antibioticoterapia de largo espectro (tetraciclina, eritromicina,
metronidazol, ciprofloxacina, entre outros) por 10 a 15 dias (Ferraz et
al, 2004).
8.5.
DC refratária
O
diagnóstico da DC refratária é considerado nos pacientes com
características da DC que têm sintomas persistentes, atrofia vilosa e
falha na resposta a DIG. Isto pode ocorrer na no início ou após uma
resposta inicial a DIG. A DC
refratária é considerada ser uma forma do linfoma intra-epitelial de
baixo grau, revelado pela malabsorção grave que não responde à DIG,
principalmente nos pacientes com DC com mais de 50 anos.
9.
Pesquisa de DC na população
A
maior controvérsia atualmente sobre a DC é quem deve ser pesquisado para
a DC. A visão atual é que não há
bastante evidência para suportar uma decisão de realizar a pesquisa
maciça da população geral, nem há bastante evidência para avaliar os
riscos da DC não detectada.
A
favor da seleção/triagem da população:
As
razões a favor da triagem da população em relação à DC são a saúde
e o crescimento normal, assim como a qualidade de vida e a expectativa de
vida.
A
prevalência da doença e as conseqüências, particularmente quando não
tratada, são tão altas que poderiam sustentar uma política da pesquisa
da população geral.
Atualmente,
há dados insuficientes para recomendar a pesquisa da população geral
para a DC, embora a DC satisfaça os cinco critérios da OMS para
justificar a seleção geral: 1. a detecção clínica precoce é
difícil; 2. tem prevalência alta (1%) e causa morbidade significativa na
população; 3. os testes para seleção são altamente sensíveis e
específicos; 4. o tratamento - DIG - está disponível; 5. se não
diagnosticada pode resultar em complicações que são difíceis de
controlar, como o linfoma intestinal.
Contra
a seleção/triagem da população:
Entretanto,
além das implicações éticas, há implicações de recursos o
que leva à questão se seria este o melhor uso quando os recursos são
limitados.
Seleção
obrigatória deve ser feita em:
-
1.
Indivíduos com sintomas gastrointestinais, incluindo a diarréia
crônica, malabsorção, perda do peso, e distensão abdominal.
-
2.
Como a DC é um distúrbio múltiplo, os médicos devem estar cientes
que o diagnóstico de DC deve ser lembrado em outras circunstâncias:
indivíduos que tenham sinais e sintomas sem explicações, tais como
elevações persistentes das transaminases, baixa estatura, puberdade
atrasada, anemia ferropriva, perda fetal recorrente, e infertilidade.
O
DC é uma condição médica comum. A prevalência é mais elevada em
grupos de alto risco. Os clínicos de várias especialidades devem
suspeitar para o diagnóstico da DC e em particular necessitam ter
atenção para identificar os grupos de alto risco. Estes incluem
indivíduos com diabetes melitus tipo 1, endocrinopatias auto-imunes,
parentes de primeiro e de segundo graus dos indivíduos com DC,
indivíduos com síndrome de Turner, síndrome de Down.
Quadro
12. Risco elevado para a DC:
|
Condições |
Risco |
|
Colite
linfocítica |
1/5 |
|
Síndrome
de Down |
1/8 |
|
Doença
auto-imune da tireóide |
1/20 |
|
Diabetes
melitus tipo 1 |
1/20 |
|
Síndrome
do intestino irritável |
1/50 |
Outras
circunstâncias que devem ser testadas para DC incluem a síndrome do
intestino irritável, a estomatite aftosa persistente, doenças
auto-imunes, neuropatia periférica, ataxia cerebelar, e hipoplasia do
esmalte dental.
Embora
os indivíduos com DC freqüentemente tenham osteoporose, não há dados
que indiquem prevalência significativamente aumentada da DC na
osteoporose.
Os
indivíduos e os médicos devem estar cientes da prevalência aumentada da
DC nestes grupos.
10.
Conclusões
A
DC é um distúrbio intestinal imune-mediado que é comum, afetando 0,5 a
1% da população em geral, mas é extremamente subdiagnosticada. Há
agora testes sorológicos específicos e sensíveis disponíveis para
ajudar no diagnóstico e que necessitam ser mais aplicados. O tratamento
da DC é DIG permanente, o que resulta na remissão dos sintomas na
maioria dos indivíduos. A apresentação clássica da diarréia e da
malabsorção é menos comum, enquanto as apresentações atípicas e
silenciosas estão aumentando. A maioria de indivíduos está sendo vista
por clínicos gerais e por muitos especialistas e não estão sendo
diagnosticados. Conseqüentemente, a maior consciência desta doença é
imperativa. A instrução dos médicos, de nutricionistas é necessária.
11.
Pontos Importantes Atuais
-
•
Para o diagnóstico de a DC devem estar presentes os dois seguintes
critérios:
-
o
Alterações histopatológicas características na biópsia
intestinal.
-
o
Melhora clínica em resposta à DIG.
-
•
Os testes sorológicos são utilizados para:
-
o
Confirmação |