Doença
celíaca como causa de baixa estatura em crianças e adolescentes - Recife
- 2005
ANA CARLA LINS NEVES
GUEIROS
Introdução
A
pediatria tem como um de seus objetivos fundamentais o acompanhamento do
crescimento, de modo que a sua avaliação, o diagnóstico de doenças que
o prejudiquem e o tratamento para evitar danos à estatura final do indivíduo
devem ser prioridade no atendimento pediátrico. A altura final do filho
é uma preocupação habitual dos pais, sendo a dificuldade para crescer e
a baixa estatura (BE) motivos comuns de consulta1.
Para
se avaliar o crescimento faz-se necessário seu acompanhamento, importante
na avaliação da condição da saúde e nutrição do indivíduo. A
avaliação antropométrica deve fazer parte dos cuidados pediátricos de
rotina, apresentando as vantagens de ser um método sensível,
universalmente aplicável, rápido, barato e não invasivo2,3.
Os
critérios utilizados para definir um portador de BE são: estatura dois
desvios padrões abaixo da média populacional ou abaixo do percentil 3;
velocidade de crescimento abaixo do percentil 25 por mais de seis meses;
estatura um desvio padrão abaixo do percentil da estatura alvo esperada,
utilizando como referência gráficos populacionais de acordo com o sexo e
idade4,5.
Na
maioria dos casos explica-se a BE por um modelo de multicausalidade, uma
vez que é dependente da interação de múltiplos fatores que atuam de
maneira complexa. Estando na dependência não apenas da herança genética
e de fatores endócrinos, mas principalmente da influência ambiental.
Compreendendo-se por ambiente não apenas o físico, mas também o
psico-social, o econômico e o nutricional1,6.
Acesso
precário a alimentos, a água tratada, a condições sanitárias, a serviços
de saúde e a qualidade das práticas e de cuidados maternos com os filhos
podem repercutir na estatura das crianças e serem responsáveis pela BE7.
Nos países em desenvolvimento, deficiência alimentar e infecções -
geralmente combinados - constituem as causas primordiais do crescimento
inadequado7,8.
As
causas da BE são ditas primárias quando existe uma anormalidade do
potencial de crescimento ósseo, como em doenças ósseas, síndromes genéticas
e doenças cromossômicas1. Nas causas secundárias o potencial de
crescimento ósseo não está alterado, mas existem fatores que impedem
sua expressão, incluindo-se desnutrição e doenças sistêmicas, dentre
elas as endócrinas, cardíacas, respiratórias, hepáticas, renais,
hematológicas e gastrointestinais1.
As
doenças de caráter recente atingem inicialmente o peso. Ao persistirem e
tornarem-se crônicas há desaceleração do crescimento e conseqüente
BE, caso o quadro não seja resolvido2. As doenças sistêmicas podem
apresentar diminuição da taxa do crescimento antes de surgirem manifestações
clínicas associadas à causa básica9.
A
doença celíaca (DC) é uma doença gastroenterológica em que há
intolerância permanente ao glúten, em indivíduos geneticamente susceptíveis.
O glúten promove reação inflamatória que agride as vilosidades
intestinais do intestino delgado, resultando em má-absorção dos
nutrientes. O espectro de apresentação da doença é variado. ocorre da
forma clássica - diarréia crônica, dor e distensão abdominal, perda de
peso, déficit de crescimento e sinais de desnutrição - às formas
atípicas
e silenciosas, sem sintomas gastrointestinais10.
A
BE sem sintomas gastrointestinais, como forma de apresentação atípica
da DC, vem sendo amplamente investigada. Pesquisas mostram prevalência
variada (de 1,7% a 59,1%) de acordo com o local do estudo e o método
empregado11-18. Estudo em São Paulo detectou prevalência de 4,7%12; em
Minas Gerais, outro trabalho não encontrou casos de DC em crianças com
BE9, Os testes sorológicos foram diferentes.
O
avanço tecnológico possibilitou o surgimento de testes sorológicos como
o anticorpo antiendomísio (AAE) e o antitransglutaminase tecidual humana
(anti-tTG), que têm altas sensibilidade e especificidade, possibilitando
diagnosticar maior número de pacientes com formas atípicas da DC19.
A
BE na população de baixa renda é muitas vezes atribuída à sua condição
de vida e à desnutrição crônica. A triagem para DC em pacientes com
baixa estatura, quando é esta a apresentação isolada da doença, não
faz parte da rotina médica em nosso meio, dado que os exames têm custo
elevado e não estão disponíveis no Sistema Único de Saúde (SUS). Há
contudo a preocupação e recomendação da Sociedade Norte Americana de
Gastroenterologia Pediátrica e
Nutrição
para se realizar teste de triagem anti-tTG nesses pacientes20.
Esta
pesquisa objetiva avaliar a freqüência da positividade do marcador sorológico
para DC em crianças e adolescentes com BE, atendidos em serviços
conveniados ao SUS na cidade do Recife, utilizando o anti-tTG humana como
teste de triagem.
Pacientes
e Métodos
Estudo
descritivo do tipo exploratório - com amostra obtida por conveniência -
realizou-se entre abril e setembro de 2004 no Ambulatório Geral de
Pediatria do Instituto Materno-Infantil Professor Fernando Figueira (IMIP)
e no Ambulatório de Crescimento e Desenvolvimento do Hospital das Clínicas
da Universidade Federal de Pernambuco. Incluíram-se crianças e
adolescentes com BE
e
idade entre 2 e 20 anos.
Foram
considerados portadores de BE os que apresentaram estatura abaixo do
percentil 3 para idade e sexo, utilizando como referência o gráfico de
altura/idade do National Center for Health Statistics (NCHS) - 200021.
Foram excluídos menores de dois anos; pacientes com diagnóstico de doenças
do metabolismo ósseo e displasia óssea; retardo do crescimento
intra-uterino;
síndromes
dismórficas; doenças cromossômicas; doenças de depósito de metabólitos;
distúrbios endócrinos (hipopituitarismo, hipotireodismo, Diabetes
Mellitus, doença de Cushing; hipogonadismo) e insuficiência renal crônica;
pacientes que usassem glicocorticóide oral, venoso ou intramuscular por
período superior a oito dias, anfetaminas ou metilfenidato.
Foram
convidados a participar da pesquisa pacientes que preencheram os critérios
de inclusão. Após o esclarecimento e concordância do responsável era
assinado o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. Houve apenas uma
recusa, devido à não - aceitação do menor em coletar sangue. O estudo
foi aprovado pelo Comitê de Ética e Pesquisa em Seres Humanos do IMIP.
A
coleta das informações foi feita em três etapas pelo pesquisador
responsável. No primeiro momento foram tomados os dados antropométricos.
O peso e a estatura foram aferidos com a criança desnuda, sem sapatos ou
meias, utilizando balança digital com precisão de 0,1 Kg; e um estadiômetro
de parede com precisão de 0,1 cm.
Em
seguida aplicou -se um questionário estruturado que abordava questões sócio-econômico-demográficas
e queixas relacionadas à DC (anormalidades do ritmo intestinal, dor
abdominal, flatulência, aftas de repetição, dificuldade de ganho de
peso e estatura, irritabilidade, história de anemia, casos de doença celíaca
na família).
O
questionário foi composto de três grupos de variáveis: (a) sócio-econômico-demográficas:
procedência; rendimento mensal; escolaridade materna; tipo de parede do
domicílio; abastecimento de água; esgoto; destino do lixo; luz elétrica;
bens de consumo (rádio, televisão, geladeira e fogão). (b) variáveis
individuais: sexo; idade; peso; índice de massa corpórea (IMC). (c) variáveis
laboratoriais: marcadores sorológicos da doença celíaca, anti - tTG;
AAE.
Por
último coletou - se sangue por punção venosa, em tubos sem
anticoagulante posteriormente centrifugados para separação do soro. As
amostras foram aliquotadas e congeladas a – 20º C, até a realização
dos testes laboratoriais.
Foram
realizados testes sorológicos para doença celíaca, anti – tTG humana.
Nos pacientes com anti - tTG positivo efetuou - se o anticorpo antiendomíseo
IgA (AAE).
O
anti-tTG humana IgA foi feito por meio da técnica de enzimoimunoensaio
(Biosystems, Espanha) por prova na microplaca, onde anticorpos presentes
no soro se ligam aos antígenos adsorvidos na superfície dos poços de
microplacas de polietileno. Amostras com concentrações superiores a 20
U/ml foram consideradas positivas22. A orientação do fabricante é que
valores superiores a 12 U/ml são positivos. Logo, pacientes acima desse
valor realizaram o AAE.
Para
a pesquisa do AAE foi utilizada a imunofluorescência indireta, tendo como
substrato cortes histológicos da porção distal de esôfago de macaco
fixados em lâminas de microscópio (Biosystems, Espanha). O AAE do soro
liga-se ao substrato e é revelado por anticorpos anti-IgA marcados com
isotiocianato de fluoresceína. Um técnico experiente em imunofluorescência
fez as leituras em microscópio LEITZ provido com lâmpada de mercúrio
(Alemanha). Foram considerados positivos os indivíduos com presença de
fluorescência uniforme na diluição de 1/5 do soro.
Os
resultados das sorologias foram descritos nos prontuários dos pacientes.
Aqueles com sorologia anti-tTG positiva foram encaminhados ao ambulatório
de gastroenterologia, para se prosseguir na investigação para DC. Os
dados foram armazenados em um arquivo do Epi-Info 6.0. Utilizou -se o
programa Check para a verificação automática de erros ocorridos durante
a entrada dos dados. Após a dupla entrada dos dados utilizou - se o
programa Validate, para identificar falhas na digitação dos dados.
Calculou – se a soroprevalência pela proporção dos indivíduos com
sorologia anti - tTG humana positivo na população do estudo.
Resultados
De
abril a setembro de 2004 foram avaliados 78 pacientes, 41 (52,6%) do sexo
feminino e 37 (47,4%) do sexo masculino. A mediana da idade foi de nove
anos (p25 = 5 anos, p75 = 12 anos). Dos participantes do estudo, 45/78
(57,7%) procediam do Recife e região metropolitana, enquanto 33/78
(42,3%) viviam no interior de Pernambuco.
Nas
mães destes pacientes a mediana da idade correspondeu a 34 anos (p25 = 29
anos e p75 = 38 anos), observou-se ainda um baixo grau de escolaridade,
com 49/78 (62,8%) analfabetas ou de primeiro grau incompleto. As famílias
tinham renda mensal baixa 56/78 (71,8%), menos que dois salários mínimos.
Ao observar as condições ambientais, 73/78 (93,6%) dos pesquisados
viviam em casa de alvenaria; 64/78 (82,1%) dos domicílios recebiam água
tratada; 49/78 (62,8%) tinham esgoto ligado à rede coletora; 67/78
(85,9%) lixo coletado e 100% luz elétrica. Ao se analisar o acesso aos
bens de consumo constatou-se que 74/78 (94,9%) dos domicílios tinham fogão
a gás; 71/78 (91%) televisão e rádio e 62/78 (79,5%) geladeira.
Um
número significativo de pacientes apresentava situação nutricional de
risco, 42/78 (53,9%) tinham peso baixo para a idade, por estarem aquém do
percentil 3 no gráfico de peso/idade do NCHS; e 26/78 (33,3%)
demonstraram risco para baixo peso pois encontravam-se entre o percentil 3
e o 10 do NCHS. Ao analisar o IMC/idade 17/78 (21,8%) apresentavam-se com
peso baixo, por estarem abaixo do percentil 5 do padrão de referência.
Quanto
às queixas, 58/78 (74,4%) das mães referiam dificuldade da criança para
ganhar peso; 67/78 (85,9%) apresentavam deficiência no crescimento; 47/78
(60,3%) tinham história anterior de anemia.
O
anti-tTG foi positivo em 6/78 (7,7%) dos pacientes, considerando o ponto
de corte do fabricante. Deles, apenas 3/78 (3,8%) apresentaram concentração
acima de 20 U/mL. Nos seis pacientes foi realizado o AAE, e apenas 1/6
(16,6%) foi positivo, este foi o que apresentou concentração mais
elevada de anti-tTG. Ao se considerar anti-tTG e AAE positivos, a freqüência
de soropositividade foi de 1,28%.
Discussão
O
estudo foi realizado em hospitais-escola conveniados à rede SUS do
Recife, sendo o IMIP um hospital filantrópico e o HC pertencente à
Universidade Federal de Pernambuco. Ambos atendem, sobretudo, à população
carente. Os dados sócioeconômicos demonstram que muitos vivem em condições
precárias, com elevado número de domicílios sem esgoto ligado à rede
coletora, nem água tratada.
Todas
as crianças pesquisadas estão abaixo do percentil 3 para a altura, o que
não diagnostica problema no crescimento, mas pode-se afirmar que a criança
tem baixa estatura. Sabe-se que para identificar deficiência de
crescimento é necessário o seu acompanhamento por um período. Como o
estudo foi transversal, a velocidade do crescimento não pode ser aferida,
uma vez que cada paciente teve um único contato com o pesquisador. Apesar
da utilização de um único parâmetro não ser ideal, como o tempo para
acompanhamento era curto e os recursos restritos,
usou
- se ponto de corte mais baixo, com intuito de delinear o problema nessa
população. A avaliação dos dados antropométricos foi feita em um único
momento, destacando - se que elevado número de crianças, além da BE,
apresenta peso baixo para idade ou está sob risco nutricional.
Na
pesquisa se observa que a soropositividade para anti-tTG varia na dependência
do ponto de corte utilizado. Ao modificá - lo de 20 U/ml para 12 U/ml, a
freqüência de positividade duplica, sobe de 3,8% para 7,7%. Outro
aspecto é que o AAE é positivo apenas no paciente que apresenta
concentração mais elevada de anti-tTG.
É
importante salientar que o diagnóstico da DC, até o momento, depende da
observação das alterações histológicas, mas a biópsia é um método
invasivo e de custo elevado, tornando-o inadequado como método de
investigação inicial 20. Além disso, o amplo espectro da DC e as
manifestações clínicas não especificas dificultam a identificação
dos pacientes que necessitam ser submetidos à mesma20. Nos últimos anos
têm - se buscado outros métodos de diagnóstico com boa sensibilidade e
especificidade, para triagem e diagnóstico de celíacos.
O
anti-tTG surgiu como uma grande esperança na triagem para DC, por ser
teste de fácil execução, com custo relativamente baixo e possível de
ser realizado em massa, com resultados semelhantes ao AAE, considerado o
melhor teste sorológico para DC20,22-24. O AAE consome mais tempo, é
mais caro, e sua interpretação é operador dependente, o que pode
favorecer erros19,20,23,25. Baseado nas evidências disponíveis e em
considerações práticas o anti-tTG é recomendado como teste de triagem
19,20. Em recente publicação a Sociedade Norte Americana de
Gastroenterologia Pediátrica e Nutrição 20 recomendou o anti-tTG humana
como teste para a triagem inicial em grupos de risco para a DC,
seguido da biópsia intestinal. Se as alterações histológicas não
forem consistentes com a DC, recomenda rever a biópsia por um patologista
experiente e considerar a realização do AAE, a determinação do HLA ou
repetir a biópsia.
O
AAE e o anti-tTG são aceitos como testes sorológicos mais sensíveis e
específicos na identificação de indivíduos que necessitam ser
submetidos a uma biópsia intestinal, para diagnosticar DC19,20,25,26. Em
revisão de literatura, comparações entre AAE e anti-tTG mostram terem
eles sensibilidade e especificidade semelhantes27. Em crianças o AAE
apresenta sensibilidade entre 88%-100% e especificidade entre 90%-100%; já
o anti-tTG tem sensibilidade entre 90%-100% e especificidade entre
94%-100% 27. Em pacientes com pouca sintomatologia ou assintomáticos,
ambos os testes apresentam um valor preditivo positivo (VPP) de 75%-80%,
enquanto em sintomáticos se aproxima de 100% 20,27,28.
Alguns
estudos20,25,27,29-31 demonstram que a acurácia dos testes sorológicos
na prática clínica pode não ser tão boa quanto reportam as pesquisas.
Alguns relacionam a positividade do AAE com o grau de atrofia vilositária
- não com a sintomatologia clínica - o que pode diminuir o diagnóstico
da DC, principalmente naqueles com atrofia vilositária menos
grave20,31,32. A DC soronegativa ocorre, e os pacientes têm uma apresentação
clínica com sintomas e resposta à dieta isenta de glúten, semelhante
aos soropositivos31. Algumas doenças podem porém provocar lesões na
mucosa intestinal assemelhadas às observadas na DC, como infecções
(enterite por rotavírus e giardíase), hipersensibilidade à proteína
alimentar (proteína do leite da vaca, da soja, ovo) e outras causas
inflamatórias duodenais (duodenite) 30,33. Para prevenir o erro diagnóstico,
a recomendação atual, sobretudo para países subdesenvolvidos, é
continuar a seguir os critérios da Sociedade Européia de
Gastroenterologia Pediátrica e Nutrição20.
Alguns
autores25,28 orientam a realização de dois testes sorológicos para se
indicar a biópsia, o anti-tTG e ,quando positivo, a confirmação com o
AAE. Os títulos de anti-tTG têm boa correlação com os do AAE, mas o
anti-tTG identifica um maior número de pacientes28. Existe alguma evidência
de que na triagem de crianças os títulos de anti-tTG são flutuantes,
que quando obtidos no mesmo período que a biópsia há correlação com o
grau de lesão da mucosa. Em artigo recente,
Barker
et al34 sugerem utilizar - se o anti-tTG como teste de triagem. Observam
que crianças com níveis acima de 20 U e menores que 100U necessitam
realizar biópsia, porque esses níveis têm menor precisão para
diagnosticar DC. Níveis acima de 100U relacionam-se a alterações histológicas
da DC, e os autores entendem que esses pacientes não necessitam de biópsia,
o que reduz custos. Embora seja uma sugestão importante, particularmente
para locais de recursos escassos, o estudo requer ampliação e comprovação
de sua reprodutibilidade.
Na
prática clínica é possível que o desempenho dos testes seja pior do
que nas pesquisas por estas razões: a definição de positivo é variável,
podendo afetar a sensibilidade e especificidade deles; pode haver diferenças
entre a população selecionada para pesquisa da prática clínica, capaz
de provocar resultados não representativos; utiliza-se a biópsia para
diagnosticar a DC, mas a gravidade das lesões histológicas e a experiência
do patologista têm impacto no diagnóstico correto; o número, tamanho e
local da biópsia e a interpretação da histologia podem diferir20.
Para
que o uso dos testes sorológicos seja racional, precisa-se compreender
sua sensibilidade e sua especificidade. Não há estandardização de
testes sorológicos em laboratórios comerciais, e a definição de
positivo é variável, o que lhes afeta a sensibilidade e especificidade.
Como teste de triagem, procura-se identificar todo caso potencial por meio
da redução dos valores dos pontos de corte, otimizando a
sensibilidade34. Quando eles são elevados, a especificidade e o VPP
são
aumentados. Wong et al22 sugerem que o ponto de corte do fabricante seja
revalidado pelo laboratório, utilizando amostras de sangue da população
estudada, modificação que interfere nos resultados, melhora a
especificidade e o VPP.
Devem
ser consideradas algumas possibilidades em crianças que apresentam
anti-tTG positivo sem alterações histológicas características de DC:
ocorrência de um falso positivo; não observação das alterações
histológicas pelo patologista; amostra biopsiada de má qualidade;
anti-tTG positivo com biópsia verdadeiramente normal representando estágio
inicial da doença (latente), com apenas soropositividade, antes da lesão
da mucosa20.
A
DC era considerada rara no Brasil, havendo carência de estudos de sua
prevalência. BE como apresentação clínica da doença começou a ser
pensada nos últimos anos9,12,35,36. Na população de baixa renda, a BE
é muitas vezes atribuída a sua condição de vida e à desnutrição crônica.
O ambiente tem sua influência no crescimento bem estabelecida2,7,37-40.
Sabe-se que condições precárias de vida e desnutrição crônica são
estímulos negativos, a desnutrição determinada pela pobreza tem no
retardo do crescimento o seu reflexo mais evidente7,37,40.
Em
população de Porto Alegre7 foi observada maior prevalência de retardo
do crescimento em famílias que apresentam menor escolaridade materna,
renda per capita menor que 0,8 salário mínimo, inadequadas condições
de moradia, crianças com menor peso ao nascer, hospitalizações no
primeiro ano de vida e filhos de mães com idade inferior a 20 anos. Na
Paraíba37, pesquisa observou déficit de crescimento bastante acentuado,
ao se comparar peso e estatura de crianças às curvas de referências
nacional e internacional, justificado pela má nutrição crônica secundária
a fatores socioeconômicos. O prejuízo da desnutrição não se restringe
à estatura final do indivíduo determinada pela pobreza. Ao persistir por
longos períodos na infância pode alterar comportamentos, afetar
desenvolvimento, e diminuir a capacidade de trabalho na vida adulta39,40.
A
doença celíaca atinge também esses pacientes e pode agravar a desnutrição.
Em pesquisa anteriormente realizada no IMIP a soroprevalência da DC foi
de 1,9%, considerando anticorpos anti-tTG e AAE positivos41. Os números são
elevados quando comparados com pesquisas realizadas em outros países, em
que a freqüência estimada da DC na população variou de 0,3 - 2% 28.
Fez-se a coleta num hospital pediátrico de referência no Estado de
Pernambuco, fato que pode favorecer um viés de prevalência, pois nesses
serviços existem pessoas sem diagnóstico, sob investigação de quadros
clínicos atribuíveis à DC (anemia, baixa estatura e dor abdominal)41.
Na
presente pesquisa a soropositividade para o anti-tTG foi 3,8%, caindo a
1,28% ao se considerar o anti-tTG e o AAE. Não foi possível realizar as
biópsia desses pacientes, importantes para serem observados os níveis do
anti-tTG e sua relação com as alterações histológicas. Existe uma
moderada evidência que a DC é mais prevalente em crianças com BE20.
Nelas, testes sorológicos identificaram entre 8-10% de doentes celíacos.
No entanto, comparar a literatura existente é dificultoso devido aos
diferentes métodos utilizados. No Brasil, Queiroz et al12 encontraram
prevalência de 4,7% com o AAE seguido de biópsia endoscópica, enquanto
Oliveira et al9 não observaram celíacos ao dosar anticorpos
anti-gliadina (IgA e IgG) e biópsia jejunal perioral. Na literatura
mundial 11,13-18 a prevalência varia (1,7%-59,1%) dependendo de como a
pesquisa é realizada. Nos estudos que constataram prevalências mais
elevadas, crianças foram inicialmente pesquisadas em causas endócrinas
de BE, antes de realizar a sorologia para DC, que tornou a amostra mais
selecionada16-18.
Os
pacientes pesquisados neste estudo não apresentavam queixas
gastrointestinais e não havia diferença importante entre os
soronegativos e os positivos. As maiores queixas entre os pacientes foram
dificuldade de ganhar peso e altura e uma história anterior de anemia,
inespecíficas e poderiam ser justificadas pela má-nutrição. Os
resultados das biópsias colaborarão para se avaliar o desempenho do
anti-tTG como teste de triagem nesses pacientes.
A
doença celíaca deve ser lembrada como causa de BE, inclusive na população
mais carente, e sempre deve fazer parte da investigação diagnóstica.
Importante salientar que os testes sorológicos não são realizados na
rede SUS de Pernambuco, causando prejuízo ao diagnóstico.
Sendo
assim, concluímos que o presente estudo não esgota o tema proposto, dado
que a amostra é oriunda da rede publica de saúde, cuja grande maioria de
pessoas tem baixa condição socioeconômica, dificultando extrapolar os
dados para outras populações.
4
– CONSIDERAÇÕES FINAIS
A
baixa estatura sem sintomas gastrointestinais é uma forma de apresentação
clínica da doença celíaca, ocorrendo anormalidades no eixo endocrinológico
do crescimento e no metabolismo ósseo. Sabe-se que o diagnóstico precoce
e o início da dieta isenta de glúten é capaz de normalizar este eixo
endocrinológico e recuperar a massa óssea, favorecendo o catch up do
crescimento. O mecanismo fisiopatológico que desencadeia as alterações
permanece obscuro, existe a hipótese de que ocorra envolvimento de
mecanismos imunológicos, autoanticorpos e interleucinas na gênese da
osteopenia e das modificações endócrinas. No entanto, é necessário
maior número de estudos nessa área.
A
baixa estatura deve ser explicada dentro de um modelo de multicausalidade,
sendo importante analisar a criança não apenas sob o ponto de vista orgânico,
mas também ambiental. Apesar do ambiente ter sua influência no
crescimento bem estabelecida, na população de baixa renda a baixa
estatura não deve ser atribuída apenas a sua condição de vida e à
desnutrição crônica. O paciente deve ser avaliado em todos os aspectos
e a doença celíaca deve ser pensada como causa de baixa estatura,
inclusive nesta população, devendo sempre fazer parte da investigação
diagnóstica.
No
estudo exploratório foi observado que a soropositividade para doença celíaca
nas crianças e adolescentes com baixa estatura da rede pública de saúde
de Pernambuco é semelhante à de outros locais. No entanto, estudos mais
amplos são necessários para definir a prevalência da doença celíaca
nesta população.
Fica
o alerta para os pediatras e endocrinologistas que a baixa estatura pode
ser a única manifestação da doença celíaca, sem queixas
gastrointestinais, inclusive na população mais carente. Sendo importante
salientar que, infelizmente até o momento, os testes sorológicos não são
realizados na rede SUS de Pernambuco o que prejudica o diagnóstico.
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