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Arquivos Brasileiros
de Endocrinologia & Metabologia
Print ISSN 0004-2730
Arq Bras Endocrinol
Metab vol.49 no.4 São Paulo Aug. 2005
doi:
10.1590/S0004-27302005000400020
http://www.scielo.br/pdf/abem/v49n4/a20v49n4.pdf
APRESENTAÇÃO DE
CASOS
Hipotiroidismo
autoimune refratário a altas
doses de
levotiroxina e hipocalcemia grave
Cintia M. dos
Santos Silva; Marcus Vinicius L. de Souza
Serviço de
Endocrinologia do Instituto Estadual de Diabetes e
Endocrinologia Luis Capriglione (IEDE), Rio de Janeiro, RJ
RESUMO
Os fatores que
dificultam a normalização do TSH no hipotiroidismo merecem
atenção especial já que muitos pacientes em reposição de
levotiroxina (LT4) encontram-se com TSH fora da faixa normal.
Apresentamos uma paciente de 50 anos com quadro de
hipotireoidismo autoimune de difícil compensação, associado à
anemia, hipocalcemia severa, hipomagnesemia, alterações
psíquicas e perda ponderal importante. Após a compensação do
hipotiroidismo somente após 325µg/dia de levotiroxina,
levantou-se a hipótese de alguma síndrome disabsortiva.
Confirmado diagnóstico de doença celíaca através de dosagem de
anticorpo anti-gliadina. Com instituição de dieta sem glúten
houve melhora dos sintomas relacionados à disabsorção, assim
como diminuição da necessidade de levotiroxina para 125µg/dia.
Baseando-se em estudos que comprovam a maior prevalência de
doença celíaca entre pacientes com desordens autoimunes da
tiróide, tem sido proposto por vários autores a realização
rotineira de screening para doença celíaca nesse grupo de
pacientes.
Descritores:
Hipotiroidismo; Levotiroxina; Doença celíaca; Hipocalcemia
O HIPOTIREOIDISMO
PRIMÁRIO É A ALTERAÇÃO da função tireoidiana mais freqüente e
geralmente de diagnóstico e tratamento simples. Tem como causa
mais comum a tireoidite auto-imune em todas as suas formas de
apresentação.
O tratamento do
hipotireoidismo consiste na reposição de hormônio tireoidiano,
em geral com levotiroxina (LT4) na dose diária que varia de 1,6
a 2,0µg/kg/dia. Algumas situações podem aumentar a necessidade
de LT4, entre elas: redução da absorção intestinal da droga em
decorrência de doença da mucosa intestinal (doença celíaca,
doença de Crohn, ressecção intestinal, entre outras), uso de
medicamentos (sucralfate, sulfato ferroso, colestiramina,
carbamazepina, fenitoína, entre outros), gravidez e, por último,
a chamada "pseudomalabsorção" da levotiroxina que corresponde à
não aderência ao tratamento (1,2).
Os autores relatam
um caso de hipotireoidismo auto-imune (Tireoidite de Hashimoto)
de difícil compensação até o diagnóstico de doença celíaca como
a causa da disabsorção da levotiroxina. Será discutido o
diagnóstico diferencial, focalizada a prevalência dessa
associação, e discussão da importância de um screening para
doença celíaca, principalmente em pacientes com tireoidite
auto-imune de difícil compensação.
RELATO DO CASO
I.V.B., 50 anos,
feminino, avaliada inicialmente em junho de 1998, devido a um
hipotireoidismo de difícil compensação por provável não
aderência ao tratamento e uma suspeita de hipoparatireoidismo em
função de episódio de hipocalcemia grave.
A paciente referia
diagnóstico de doença tireoidiana há seis anos quando foi
solicitada dosagem hormonal em função de emagrecimento, insônia,
nervosismo e diarréia esporádica, sendo diagnosticado na ocasião
hipotireoidismo (T3 e T4 diminuídos e TSH aumentado). Com o
tratamento, apresentou discreta melhora na queda de cabelo e na
textura da pele. Usou várias apresentações comerciais de
levotiroxina (LT4) e triiodotironina (T3) sem nunca ter
conseguido normalizar os níveis séricos desses hormônios.
Referia ainda depressão e instabilidade emocional. Achava a pele
hiperpigmentada apesar de não haver exposição solar.
Na ocasião, estava
em uso de LT4 125µg/dia, T3 25µg/dia e cloridrato de etifedrina,
devido a tonteiras associadas a níveis pressóricos sempre
baixos. Usava também carbonato de cálcio 1g/dia em função de
hipocalcemia (descoberto após episódio de tetania). Menopausa há
três anos. História familiar revela parente de primeiro grau com
hipertireoidismo, pai diabético tipo 2 e falecido de
cardiopatia. Ao exame físico apresentava-se bastante emagrecida,
com pele ressecada, tireóide pequena, superfície irregular.
Reflexo aquileu abolido, hipotensa (PA= 80 x 40mmHg) sem
hipotensão postural, freqüência cardíaca de 76 bpm, peso= 44kg,
altura= 1,62m, índice de massa corporal= 16,7kg/m2. Restante do
exame físico sem alterações.
A avaliação
laboratorial inicial confirmou a não compensação de um
hipotiroidismo auto-imune, com TSH de 83µU/mL, além de sugerir
fortemente insuficiência adrenal em função de teste de estímulo
endovenoso com ACTH não responsivo, com valores de cortisol
basal e aos 60 minutos respectivamente de 8,7 e 12,9µg/dl. Os
eletrólitos não sugeriam insuficiência adrenal, com sódio de
134mEq/L, potássio de 3,4mEq/L, além de um magnésio baixo,
0,9mEq/L. O hemograma mostrava anemia (Ht: 27%, Hb: 9,0g/dl) com
resultados posteriores confirmando ser uma anemia ferropriva;
Ferro sérico= 16µg/dl (normal 37-150). Apresentava acido Fólico
e Vitamina B12 normais, além de atividade de protrombina (TAP) e
relação do TTPA alterados (TAP= 24%, relação TTPA= 2,4).
Foi afastada a
hipótese de hipoparatireoidismo em função de cálcio baixo
(5,9mg/dl) com PTH elevado e calciúria diminuída, sugerindo um
quadro de hiperparatireoidismo secundário, talvez por
disabsorção intestinal de cálcio.
Diante dos exames
foi aumentada a dose de LT4 para 250µg/dia. Iniciado corticóide
oral (prednisona 7,5mg/dia) em função da provável insuficiência
adrenal, além de incremento na reposição de cálcio
adicionando-se magnésio. A dose de LT4 foi aumentada
progressivamente até 325µg/dia, quando se obteve normalização do
TSH e da tiroxina livre. Não houve qualquer melhora dos sintomas
inicialmente atribuídos a possível insuficiência adrenal
(fraqueza, astenia, depressão, perda ponderal e diarréia).
A paciente começou a
relatar episódios de diarréia e dor abdominal que eventualmente
a acordavam durante a noite, porém a investigação do mesmo
quadro abdominal prévio mostrava endoscopia digestiva alta com
gastrite antral leve, metaplasia gástrica no bulbo e na segunda
porção duodenal. A colonoscopia prévia evidenciou colite
segmentar em ângulo esplênico com histopatológico mostrando
inflamação mínima, colite inespecífica moderada, além de exame
de fezes com pesquisa de leucócitos, gorduras e hemácias
negativas. Baseando-se em todos os achados laboratoriais e
clínicos, foi levantada a hipótese de síndrome disabsortiva em
intestino delgado, e levantada hipótese de doença celíaca ou
doença de Crohn. Solicitado inicialmente exame sorológico para
doença celíaca (anticorpo anti-endomísio e anti-gliadina) e
anticorpo anti-célula parietal. O anticorpo anti-gliadina
mostrou-se fortemente positivo 1/30.000 (normal até 1/18 –
imunofluorescência indireta), anticorpo anti-célula parietal foi
negativo e anticorpo anti-endomísio não foi realizado. Tornou-se
muito provável o diagnóstico de doença celíaca em função da alta
positividade do anticorpo anti-gliadina, sendo iniciada dieta
sem glúten, havendo excelente resposta com diminuição
progressiva da dose de levotiroxina (atingiu a dose de
125µg/dia). A paciente apresentou ganho progressivo de peso
(14kg em 1 ano com normalização do IMC), inclusive com síndrome
edemigênica típica de síndrome de recuperação protéica
normalmente observada em crianças, além da normalização dos
eletrólitos (cálcio e magnésio) sem qualquer reposição via oral.
O corticóide que vinha sendo administrado foi gradativamente
suspenso, mesmo em situações de stress, após novo teste de
estimulação com ACTH, mostrando resposta normal do cortisol
(cortisol basal de 13µg/dl e 60 minutos de 28µg/dl). Houve
resolução da anemia por deficiência de ferro, fato antes nunca
ocorrido apesar de inúmeras reposições de ferro oral. Os
principais exames laboratoriais com suas respectivas mudanças
após o diagnóstico e tratamento da doença celíaca podem ser
vistos na tabela 1.
DISCUSSÃO
A descrição desse
caso visa salientar que a doença celíaca pode ser diagnosticada
em pacientes adultos ou idosos, mesmo sem grandes sintomas
digestivos através do quadro de resistência ao tratamento com
levotiroxina (LT4) em pacientes com tireoidite de Hashimoto (2).
A dose ideal de LT4
varia de acordo com a idade e o peso do paciente. Em adulto, a
dose diária situa-se entre 1,6 e 2,0µg/kg/dia. A absorção de LT4
ocorre no duodeno, jejuno e íleo, principalmente no 1/3 proximal
e médio do jejuno, sendo melhor em jejum, 60 minutos antes do
café da manhã. O LT4 possui meia-vida de 7 dias e sua absorção
costuma ser em torno de 80% da dose administrada. Em várias
situações, como já referido anteriormente, esta necessidade pode
aumentar.
Inicialmente foram
levantadas algumas hipóteses, entre elas insuficiência
poliglandular tipo 1, devido ao quadro de hipocalcemia com
possível hipoparatireoidismo e insuficiência adrenal associada
em função de teste de estimulação com ACTH não responsivo. A
hipótese de insuficiência poliglandular auto-imune tipo 1, que
apresenta como manifestações mais características o
hipoparatireoidismo, a candidíase mucocutânea crônica e a doença
de Addison, ocorrendo mais comumente na infância, a princípio
foi descartada, uma vez que a paciente tinha 50 anos e, apesar
do teste com ACTH não responsivo, tinha anticorpo anti-adrenal
negativo, não possuía hiperpigmentação da pele e principalmente
na evolução da paciente, chamou a atenção o fato de não ter
havido qualquer melhora dos sintomas com o uso de corticóide, o
que é marcante nos pacientes com insuficiência adrenal. A
paciente apresentava nitidamente um quadro de
hiperparatireoidismo secundário (cálcio baixo com PTH elevado)
possivelmente relacionado a disabsorção no trato gastrintestinal
e compatível com uma calciúria diminuída compensatoriamente. A
história clínica excluía o uso contínuo de medicamentos como
colestiramina, sulfato ferroso, sucralfate. Carbonato de cálcio
havia sido introduzido mais recentemente, porém em dose pequena
e certamente não suficiente para justificar todo o quadro da
paciente (3). A história passada ou os achados clínicos não
evidenciavam outras causas de má absorção como síndrome do
intestino curto, pancreatite, cirrose, insuficiência cardíaca
congestiva. Apesar da ausência de sintomas digestivos maiores, o
diagnóstico de doença celíaca foi levantado baseando-se na
necessidade de altas doses de LT4, além de índice de massa
corporal baixo, episódios esporádicos de diarréia com dor
abdominal, anemia ferropriva e hipocalcemia (1). Doença de Crohn
acometendo o intestino delgado seria uma outra hipótese
diagnóstica; no entanto, a alta positividade do anticorpo
anti-gliadina detectada evitou o prosseguimento certamente
desnecessário na investigação para doença de Crohn.
A má absorção
associada à doença celíaca leva não somente a redução da
absorção de LT4 (que se faz ao nível jejunal), como na
dependência da gravidade da disabsorção leva eventualmente a
desnutrição mesmo em pacientes adultos, com conseqüente
diminuição do nível sérico de albumina, provavelmente o
responsável pela não responsividade inicial do teste com 250µg
de ACTH. Hamrahian Amir e cols. referem, em um estudo, que 40%
dos pacientes com doença crítica e hipoproteinemia têm valores
subnormais tanto de cortisol basal como após o teste de estímulo
com ACTH (4). O hipotireoidismo descompensado poderia ser outro
fator responsável pela não resposta ao teste com ACTH. Em função
da síndrome disabsortiva, a doença Celíaca também costuma cursar
com hipocalcemia (a absorção de cálcio se faz ao nível jejunal),
surgindo assim um quadro de hiperparatireoidismo secundário com
calciúria diminuída e perda de massa óssea. Em alguns casos,
além da hipocalcemia pode ocorrer hipomagnesemia associada, e no
caso em questão pode também ter sido fator agravante da
hipocalcemia, trazendo um estado de resistência à ação do PTH, e
estes fatores associados justificariam o episódio de tetania
relatado pela paciente. Pode cursar ainda com anemia ferropriva,
já que a absorção do ferro se faz principalmente a nível ileal
(5-7).
No caso descrito, o
diagnóstico sorológico foi feito baseando-se nos altos níveis de
anticorpo anti-gliadina. A especificidade da anti-gliadina IgG é
de até 90% e da anti-gliadina IgA é de até 95%, com associação
de IgG e IgA é de até 100%. Outros anticorpos com alta
especificidade como o anti-endomísio e anti-transglutaminase
tissular podem ser usados para confirmar o diagnóstico (8).
Biópsia do intestino
delgado é o exame que fornece diagnóstico definitivo da doença
celíaca, além de excluir a presença de linfoma duodenal, como
definido no critério estabelecido pela ESFGAN (European Society
of Pediatric Gastroenterology and Nutrition) em Budapeste, 1989
(9,10).
A prevalência de
doença celíaca tem sido invariavelmente maior em pacientes com
doenças auto-imunes da tireóide do que nos grupos controles. Em
estudos com screening sorológicos encontrou-se uma prevalência
de 0 a 8,8% da doença celíaca entre pacientes com doença da
tireóide (3).
Os benefícios do
screening para doença celíaca em paciente com doença da tireóide
auto-imune continuam sendo estudados, uma vez que a apresentação
clínica nos pacientes com doença celíaca oligossintomática pode
ser apenas com leve deficiência de alguns elementos como ferro,
acido fólico, vitamina B12, cálcio e magnésio. Vale enfatizar
que até 10% da população adulta com deficiência de ferro pode
ter doença celíaca associada. Diarréia e perda de peso podem não
estar presentes, e muitas vezes os pacientes permanecem por anos
com diagnóstico de síndrome do cólon irritável. Assim, a doença
celíaca do adulto é certamente uma doença subdiagnosticada ou
diagnosticada tardiamente. Estes pacientes adultos ou idosos,
por conta disso, estão sujeitos a outras doenças auto-imunes sem
diagnóstico (principalmente da tireóide), neoplasias
(principalmente linfoma), doenças osteometabólicas (com perda de
massa óssea), distúrbios de coagulação, além de anemia por
deficiência de ferro e anemia megaloblástica (11). Todas essas
evidências justificam a utilização de screening, pelo menos em
pacientes com doença tiroidiana auto-imune de difícil
compensação, buscando a melhora da qualidade de vida e prevenção
de algumas complicações acima citadas.
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Endereço para
correspondência
Marcus Vinicius
Leitão de Souza
Travessa Maria
Elmira 32, casa 33
24240-260 Niterói,
RJ
E-mail:
marcusleitao@terra.com.br
Recebido em 21/03/05
Revisado em 18/07/05
Aceito em 05/08/05
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