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O
Papel da Odontologia na Doença Celíaca
Fábio
Vivian *
Algumas
manifestações da doença celíaca ocorrem na cavidade bucal e cabe aos
profissionais que atuam nessa área, a competência do diagnóstico e tratamento
dessas afecções. Entretanto, devido à falta de divulgação e informação
específicas, poucos são os profissionais realmente aptos a tratar desses
problemas. Estudos realizados por pessoas que tem particular interesse em se
aprofundar no conhecimento dessa doença, cada vez mais vêm mostrando que a
Odontologia tem papel fundamental no diagnóstico e no tratamento das lesões a
ela relacionadas. O diagnóstico precoce é fator indispensável na prevenção
dos problemas. Quanto mais cedo for dado o diagnóstico, antes poderão ser
tomadas medidas cabíveis. A primeira infância é a fase em que a dentição
está em formação e que os problemas relacionados à estrutura dos dentes tem
mais chances de se instalar. Por exemplo: - Estudos comprovam que o controle
excessivo da dieta, geralmente feito pelas mães, muitas vezes peca no equilíbrio
dos nutrientes fundamentais para o desenvolvimento dos dentes e ossos das crianças.
Vitaminas A, C, e D, são indispensáveis para o bom desenvolvimento ósseo
esquelético do ser humano. O cálcio, elemento base para as estruturas duras do
corpo, muitas vezes é deficiente no celíaco por este poder ser também
intolerante à lactose, proteína presente no leite e que é fonte rica em cálcio.
Por essa razão, indivíduos com esse problema, devem fazer um acompanhamento
nutricional para que seja feita uma reposição deste elemento de forma
equilibrada. Na dúvida sobre o que pode ou não comer, o celíaco acaba muitas
vezes alimentando-se de forma incorreta. Dentro de uma alimentação controlada
por um especialista, pode-se eliminar qualquer carência nutricional do indivíduo
e que não ponha em risco a saúde geral do corpo. Nunca se deve esquecer que o
celíaco é intolerante ao glúten, mas que a cadeia de alimentos é vasta e
completa, e deve ser explorada de forma adequada a cada um, de preferência
acompanhada por um especialista em nutrição.
Os
problemas mais freqüentes que ocorrem na boca dos portadores da doença celíaca
estão relacionados com os tecidos duros ( dentes ), como bruxismo, amelogênese
imperfeita, manchas por deficiência ou excesso de cálcio, fluorose dental, uso
incorreto da tetraciclina, erosões... Das que acometem os tecidos moles (
bochecha, língua, lábio, palato... ) estão o líquen plano, herpes e aftas.
Tecidos
Duros
Bruxismo
O
Bruxismo caracteriza-se pelo ranger dos dentes, geralmente noturno, e que está
relacionado a um distúrbio de fundo emocional. Isso faz com que haja um
desgaste progressivo da estrutura dental. No início do processo de adaptação
do diagnóstico, algumas pessoas não convivem muito bem com a idéia de serem
portadoras da doença celíaca. Isso faz com que haja esse desequilíbrio. Esta
mesma alteração emocional, faz com que outros problemas, como o herpes possam
surgir. No início, o controle da situação muitas vezes é feito por medicação
e acompanhamento psicológico. Nesses casos, dado o diagnóstico, deve-se
interpor uma placa rígida entre os dentes evitando com isso o desgaste.
Bruxismo
Amelogênese
Imperfeita
A
amelogênese imperfeita, caracteriza-se por uma deposição deficiente e
irregular dos cristais de esmalte sobre os dentes e que causam problemas de
ordem não só estética, mas também funcional da arcada dentária. Pode haver
manchas esbranquiçadas e porosas, distribuídas pela superfície dentária.
Isso pode ocorrer de forma localizada (poucos dentes) ou generalizada. Em alguns
casos mais severos, sulcos horizontais profundos que alteram a anatomia normal
dos dentes também podem ser vistos. Trata-se normalmente com processos de
clareamento e/ou restaurações estéticas.
Amelogênese
Imperfeita
Manchas por deposição de cálcio
Erroneamente,
muitas pessoas pensam que os dentes mais brancos são mais fortes e que os
amarelados possuem algum problema. Nem sempre... Na verdade os dentes passam por
um processo de deposição de cálcio que quanto maior for, mais amarelados
ficarão. Algumas pessoas, temendo por uma deficiência de cálcio no organismo,
fazem uso indiscriminado de cápsulas deste mineral. Isso na verdade, pode
causar manchas irregulares na superfície dos dentes. Mas isso só ocorre quando
os dentes estão em fase de formação, ou seja, quando ainda estão
incompletamente formados dentro dos ossos. Por exemplo: Um indivíduo que tenha
seis anos de idade e passe a fazer uso excessivo de cálcio, pode ter os pré-molares
ou segundos molares, bem como qualquer outro dente que esteja em formação,
danificado pelo manchamento. Já a ‘deficiência’ deste elemento na dieta,
pode igualmente causar problemas. A dentição pode ficar enfraquecida à
fratura e pode ainda haver irregularidade superficial, dando um aspecto poroso
aos dentes.
Distúrbios Cálcicos
Flourose
dental
A
diferença entre remédio e veneno, está na dose. Tudo em excesso faz mal, não
e verdade? Sabendo dos riscos que correm de ter problemas dentários, muitas
vezes os celíacos, por si mesmos ou instruídos pelos pais, fazem uso do flúor
para prevenir alguns males. Até aí, tudo bem... não fosse o fato de que o flúor
em excesso também pode causar problemas aos dentes. Quando os dentes estão em
formação, podem sim se beneficiar com o uso deste elemento. Mas se usado de
forma incorreta, causa a chamada fluorose dental. São manchas escuras que
variam de intensidade, conforme a gravidade do caso. Isso muitas vezes não é tão
simples de tratar, pois os danos podem ser bem sérios.
Fluorose
Uso
de Tetraciclina
Embora
hoje se saiba dos danos que esse medicamento pode causar aos dentes, muito
profissionais da saúde ainda utilizam-no de forma incorreta. Indicado em fase
de desenvolvimento dentário, esse medicamento pode curar doenças, mas causar
um manchamento severo na dentição do indivíduo. O ‘Por Quê’ do celíaco?
Pois bem... Muitas das manifestações da doença celíaca são
gastrintestinais. Inúmeros são os casos de profissionais que trataram celíacos
como portadores de infecção intestinal, e se valeram do uso das tetraciclinas
para tal. Pois além de não curar a suposta ‘dor de barriga’, o dano
causado aos dentes ainda veio piorar o quadro. O tratamento para este problema
é de ordem estética, clareamento e restaurações estéticas com laminados de
porcelana ou simplesmente aplicação de resinas.
Uso
incorreto de Tetraciclina
Erosões
A
literatura apresenta casos de celíacos que possuem constantes refluxos gástricos,
(vômito crônico). Ao longo do tempo, uma descalcificação progressiva dos
dentes pode deixar a superfície irregular e porosa. Isso ocorre pela ação do
ácido clorídrico presente no estômago. Isso também é observado em
empregados de industrias de refrigerantes, onde o ácido fosfórico usado na
fabricação dessas bebidas, quando inalado, passa pela boca e promove esses
danos na dentição. Essas pessoas devem fazer uso contínuo de flúor para
prevenir o surgimento das erosões.
Erosões
Problemas
dentários são menos freqüentes em pessoas que desenvolveram a doença na fase
adulta, pois já tem seus dentes completamente formados. Hoje, a informação
vem sendo levada cada vez mais a um número maior de pessoas fazendo com que se
difundam os cuidados a serem tomados em pessoas portadoras da doença celíaca e
isso torna cada vez mais fácil prevenir danos maiores ou até mesmo corrigir
mais facilmente os que já se manifestaram.
Tecidos
Moles
Líquen
Plano
O
desequilíbrio emocional que muitas vezes se manifesta no celíaco, deixa
abertura para doenças chamadas psicossomáticas. O Líquen Plano normalmente é
assintomático, mas pode também causar leve ardência. Geralmente se dá na
mucosa da bochecha. Caracteriza-se por linhas esbranquiçadas irregulares e
assim como surgem, podem desaparecer sem que para isso seja necessária intervenção
alguma. O simples equilíbrio emocional devolve normalidade ao tecido lesado.
Líquen Plano
Herpes
Outra
manifestação psicossomática, de fundo emocional, (também pode ter origem
traumática, como sol ou vento...), deve ter um fator indispensável para o seu
surgimento. O celíaco deve ser portador do vírus do herpes, o HSV. Caso contrário, a
doença não se manifestará. O vírus fica alojado no cérebro e surge quando
encontra condições ideais. Normalmente ocorre na comissura labial, bem no
canto da boca. Surgem bolhas, contendo líquido no seu interior e que após
drenarem, secam e cicatrizam. Geralmente levam de dez a quinze dias para curar.
Caso o indivíduo sinta os primeiros sinais de que vai ocorrer a lesão (aumento
de temperatura local ou uma leve coceira), pode ser feito uso de uma medicação
que acelera o processo, reduzindo o ciclo ou ainda impedindo que ele ocorra.
Herpes
Aftas
O mais polêmico dos assuntos, por isso deixado por último. Polêmico,
porque ainda existem obscuridades a respeito das aftas recorrentes. Mas o que se
sabe? Bem, existe na cavidade bucal uma bactéria chamada Estreptococos Alfa
Hemolítico, que é um exímio produtor de enzimas proteolíticas. O que é
isso? Uma enzima capaz de digerir as proteínas dos tecidos vascularizados que
abundam na cavidade bucal. Essa bactéria procura uma maneira de penetrar o
tecido da mucosa bucal e desenvolver suas colônias para se reproduzir. Se
houver lesão desse tecido por trauma, ingestão de alimentos ácidos ou
excessivamente alcalinos e que danifiquem as células do tecido mucoso, essa
bactéria penetra e começa uma destruição celular ao seu redor. Até que o
organismo consiga combatê-las, os danos já chegaram a uma região mais
profunda e sensível da mucosa, o tecido conjuntivo. A cicatrização leva em
torno de dez a quinze dias.
O
que acontece, é que existem pessoas que apresentam uma elevada contagem desse
tipo de bactéria na saliva e isso favorece sobremaneira o aparecimento das lesões.
Existem trabalhos que atentam para uma enzima chamada amilase, presente também
na saliva. Ela é responsável pela quebra das moléculas do amido no processo
de digestão. Amido esse comumente encontrado nos alimentos que os celíacos não
podem ingerir. Essa enzima, segundo pesquisas, teria um papel de grande importância
no equilíbrio da população de Estreptococos Alfa Hemolítico na cavidade
bucal. Elas seriam sensíveis a ação da amilase. O Celíaco, como se sabe,
produz quantidades pequenas de amilase no organismo. Ora, pensemos juntos... Se
o celíaco não estimula a produção de amilase na saliva, essa bactéria teria
uma porta aberta para o seu desenvolvimento maior e mais rápido, pois é menor
o número de inimigos naturais. Ela se desenvolvendo com mais facilidade,
poderia causar mais danos que o normal. Isso vem sendo comprovado por um grupo
de pesquisadores Irlandeses que, encontrou uma incidência maior de aftas
recorrentes em pessoas que estavam se submetendo a dietas de emagrecimento.
Outros trabalhos dirigem a atenção à espessura da mucosa da boca nos celíacos,
que seria mais delgada que o normal, facilitando a penetração das bactérias
no seu interior. Seria correto dizer que reduzindo as colônias de bactéria na
boca, reduziriam as incidências de lesões na boca? Corretíssimo... Por isso,
pesquisa-se incansavelmente por uma fórmula mágica que possa dar esse presente
aos sofredores de aftas recorrentes. Pois bem, por enquanto, existe um único
medicamento comprovadamente capaz de
reduzir o número dessas bactérias na saliva. É o Digluconato de Clorexidine.
Testado e aprovado, vem sendo largamente utilizado para esse fim. Mas seria bom
demais se não houvesse nenhum senão... O fato é que esse medicamento possui
alguns efeitos colaterais. Contudo, se usado de forma controlada e
supervisionada, pode trazer excelentes resultados para aqueles que não vêem a
hora de acabar com esse sofrimento...
Afta labial
Sharpey e Douglas (ambos celíacos), em
1987, realizaram na Inglaterra um estudo com 740 indivíduos voluntários celíacos
e não celíacos para que fossem submetidos a um ataque de Estreptococos Alfa
Hemolíticos isolados. Realizaram micro lesões intencionais na mucosa jugal
(bochecha), e labial com instrumento perfurante e também foi dado estímulo químico
com dieta ácida a base de abacaxi. Os voluntários faziam diariamente bochechos
com uma solução rica em Estreptococos. O resultado mostrou que a diferença
entre o número de voluntários que desenvolveram
a doença, entre celíacos e não celíacos, não
foi significativa, ficando estatisticamente semelhante. Ou seja, não
haveria diferença entre as incidências de aftas em celíacos e não celíacos.
O estudo revelou ainda que a incidência da doença caiu significativamente em
indivíduos que fizeram uso do Digluconato de Clorexidine. Aqueles que
desenvolveram lesões, tiveram um período de cicatrização reduzido com o uso
deste medicamento. Este talvez seja o estudo de maior abrangência e
detalhamento de resultados presente na bibliografia até o momento e com certeza
o mais respeitado, pois é o mais rico em diversidade de situações no mesmo
sitio. Talvez, com isso, tenha-se na incidência recorrente das aftas nos celíacos,
apenas um fator de necessidade de atenção maior ao diagnóstico da doença,
orientando os indivíduos que procurem realizar o teste de fator de
sensibilidade. •Anticorpo antiendomisial(EMA); • Anticorpo anti-reticulina
(ARA); • Anticorpo antigliadina (AGA).
Afta
labial
O
uso do creme dental
Quanto
ao uso de creme dental, alguns celíacos acreditam haver problemas com seu
emprego na higiene bucal, pelo risco de conter farinha na sua formulação, (glúten).
Essa informação não é confirmada por nenhuma indústria farmacêutica
produtora deste produto. Há relatos de um grupo de pesquisadores Argentinos que
teriam encontrado resíduos de glúten na composição de um creme dental. A indústria
se defendeu sugerindo a hipótese deste grupo ter contaminado algum corpo de
prova com o pó das luvas de manipulação, pois muitos fabricantes usam
materiais a base de farinha como talco. Não há relatos oficiais
de pessoas que tenham usado creme dental e tenham apresentado quaisquer distúrbios
gastrintestinais ou outros quaisquer. Algumas pessoas trocam o creme dental
pelo gel dental, como precaução. No entanto, devem ter em mente que a
formulação do gel danifica a superfície de estruturas como as resinas
restauradoras e as porcelanas. Isso causa uma perda de brilho e altera a lisura
superficial desses materiais. Isso não ocorre na superfície do esmalte sadio,
nem com o uso do creme dental tradicional.
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Fábio Vivian foi convidado pela Acelbra-RS para dar uma palestra sobre o
Odontologia e a Doença Celíaca em dezembro de 2004. Ele trabalha no Rio Grande
do Sul e se especializou em Bauru-SP.
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