ANEXO
PROTOCOLO
CLÍNICO E DIRETRIZES TERAPÊUTICAS DA DOENÇA CELÍACA
1.
Introdução
A Doença Celíaca (DC) é autoimune (1), causada pela
intolerância permanente ao glúten - principal fração
protéica presente no trigo, centeio, cevada e aveia -
e que se expressa por enteropatia mediada por
linfócitos T, em indivíduos geneticamente
predispostos.
Estudos
de prevalência da DC têm demonstrado que esta doença é
mais frequente do que anteriormente se acreditava
(2-15), e que continua sendo subestimada. A falta de
informação sobre a DC e a dificuldade para o
diagnóstico prejudicam a adesão ao tratamento e
limitam as possibilidades de melhora do quadro
clínico. Outra particularidade é o fato de a DC ser
predominante entre os indivíduos faiodérmicos, embora
existam relatos de sua ocorrência em indivíduos
melanodérmicos. Estudos revelam que o problema atinge
pessoas de todas as idades, mas compromete
principalmente crianças de seis meses a cinco anos.
Também foi notada uma frequência maior entre mulheres,
na proporção de duas mulheres para cada homem. O
caráter hereditário desta doença torna imprescindível
que parentes de primeiro grau de celíacos submetam-se
ao teste para sua detecção.
Três
formas de apresentação clínica da DC são reconhecidas,
quais sejam: clássica ou típica, não clássica ou
atípica, e assintomática ou silenciosa (16,17):
I Forma
Clássica: caracterizada pela presença de diarréia
crônica, em geral acompanhada de distensão abdominal e
perda de peso. O paciente também pode apresentar
diminuição do tecido celular subcutâneo, atrofia da
musculatura glútea, falta de apetite, alteração de
humor (irritabilidade ou apatia), vômitos e anemia.
Esta forma clínica pode ter evolução grave, conhecida
como crise celíaca, que ocorre quando há retardo no
diagnóstico e tratamento adequado, particularmente
entre o primeiro e o segundo anos de vida, e
frequentemente desencadeada por infecção. Esta
complicação potencialmente fatal se caracteriza pela
presença de diarréia com desidratação hipotônica
grave, distensão abdominal por hipopotassemia e
desnutrição grave, além de outras manifestações como
hemorragia e tetania.
II
Forma Atípica: caracteriza-se por quadro mono ou
oligossintomático, em que as manifestações digestivas
estão ausentes ou, quando presentes, ocupam um segundo
plano. Os pacientes deste grupo podem apresentar
manifestações isoladas, como, por exemplo, baixa
estatura, anemia por deficiência de ferro refratária à
reposição de ferro por via oral, anemia por
deficiência de folato e vitamina B12, osteoporose,
hipoplasia do esmalte dentário, artralgias ou
artrites, constipação intestinal refratária ao
tratamento, atraso puberal, irregularidade do ciclo
menstrual, esterilidade, abortos de repetição, ataxia,
epilepsia (isolada ou associada à calcificação
cerebral), neuropatia periférica, miopatia,
manifestações psiquiátricas - depressão, autismo,
esquizofrenia -, úlcera aftosa recorrente, elevação
das enzimas hepáticas sem causa aparente, fraqueza,
perda de peso sem causa aparente, edema de aparição
abrupta após infecção ou cirurgia e dispepsia não
ulcerosa.
III
Forma Silenciosa: caracterizada por alterações
sorológicas e histológicas da mucosa do intestino
delgado compatíveis com DC, na ausência de
manifestações clínicas. Esta situação pode ser
comprovada especialmente entre grupos de risco para a
DC como, por exemplo, parentes de primeiro grau de
pacientes com DC, e vem sendo reconhecida com maior
frequência nas últimas duas décadas, após o
desenvolvimento dos marcadores sorológicos para esta
doença.
Deve-se
mencionar a dermatite herpetiforme, considerada DC da
pele, que se apresenta com lesões cutâneas do tipo
bolhoso e intensamente pruriginoso e que se relaciona
também com a intolerância permanente ao glúten.
2.
Classificação CID 10
K90.0 Doença Celíaca
3.
Critérios de inclusão
Serão incluídos neste Protocolo:
I
Indivíduos que apresentem sintomas ou sinais das
formas clássica e atípica de DC;
II
Indivíduos de risco, entre os quais a prevalência de
DC é esperada como consideravelmente maior do que a
população geral: parentes de primeiro grau (pais e
irmãos) de pacientes com DC (18-21); indivíduos com
anemia por deficiência de ferro refratária à reposição
de ferro oral (22), com redução da densidade mineral
óssea (23-24), com atraso puberal ou baixa estatura
sem causa aparente (25-26); indivíduos com doenças
autoimunes, como diabetes melito insulinodependente
(27), tireoidite autoimune (28), deficiência seletiva
de IgA (29), Síndrome de Sjögren (30), colestase
autoimune (31), miocardite autoimune (32); indivíduos
com síndrome de Down (33), com síndrome de Turner
(34), com síndrome de Williams (34), com infertilidade
(35), com história de aborto espontâneo (36) ou com
dermatite herpetiforme (37).
4.
Diagnóstico
Para o diagnóstico definitivo da DC é imprescindível a
realização de endoscopia digestiva alta, com biópsia
de intestino delgado, devendo-se obter pelo menos 4
fragmentos da porção mais distal do duodeno, pelo
menos segunda ou terceira porção, para exame
histopatológico do material biopsiado, exame este
considerado o padrão-ouro no diagnóstico da doença
(34).
Os
marcadores sorológicos são úteis para identificar os
indivíduos que deverão submeter-se à biópsia de
intestino delgado, especialmente aqueles com ausência
de sintomas gastrointestinais, doenças associadas à DC
e parentes de primeiro grau assintomáticos. Os
marcadores sorológicos também são úteis para
acompanhamento do paciente celíaco, como, por exemplo,
para detectar transgressão à dieta. São três os
principais testes sorológicos para a detecção da
intolerância ao glúten: anticorpo antigliadina,
anticorpo antiendomísio e anticorpo
antitransglutaminase.
Com
relação ao anticorpo antigliadina, descrito por Haeney
et al., em 1978, determinado pela técnica de ELISA,
deve-se mencionar que a especificidade do anticorpo da
classe IgA (71% a 97% nos adultos e 92% a 97% nas
crianças) é maior do que da classe IgG (50%), e que a
sensibilidade é extremamente variável em ambas as
classes (38,39).
O
anticorpo antiendomísio da classe IgA, descrito por
Chorzelski et al, em 1984, é baseado na técnica de
imunofluorescência indireta. Apresenta alta
sensibilidade (entre 88% e 100% nas crianças e entre
87% a 89% no adulto), sendo baixa em crianças menores
de dois anos, e sua especificidade também é alta (91%
a 100% nas crianças e 99% nos adultos) (38,39). No
entanto, é um teste que depende da experiência do
examinador, de menor custo/benefício e
técnica mais trabalhosa do que a de ELISA (40).
Com relação ao anticorpo antitransglutaminase da
classe IgA, descrito por Dieterich et al., em 1997,
obtido pelo método de ELISA, o seu teste é de elevada
sensibilidade (92% a 100% em crianças e adultos) e
alta especificidade (91% a 100%) (38).
Em
resumo, há superioridade do anticorpo antiendomísio e
do anticorpo antitransglutaminase, ambos da classe
IgA, principalmente o anticorpo antitransglutaminase
recombinante humana IgA, em relação ao antigliadina.
Considerando a maior facilidade da dosagem do
anticorpo antitransglutaminase, aliado À elevadas
sensibilidade e especificidade na população pediátrica
e adulta, este é o teste sorológico de escolha para
avaliação inicial dos indivíduos com suspeita de
intolerância ao glúten (40).
Deve-se
destacar que a deficiência de imunoglobulina A é
responsável por resultados falsos negativos dos testes
sorológicos antiendomísio e antitransglutaminase da
classe IgA. Por este motivo, indica-se como testes
diagnósticos iniciais da DC a dosagem sérica
simultânea do anticorpo antitransglutaminase da classe
IgA e da imunoglobulina A.
Deve-se
enfatizar que, até o momento, os marcadores
sorológicos para DC não substituem o exame
histopatológico do intestino delgado, que continua
sendo o padrão ouro para o diagnóstico de DC. Os
testes sorológicos serão considerados testes
diagnósticos iniciais, que identificam os indivíduos a
serem encaminhados para a biópsia duodenal. No
entanto, deve-se considerar que há indicação de
biópsia para indivíduos com sintomas ou sinais de DC,
mas com marcadores sorológicos negativos,
principalmente se integram grupo de risco.
Em
relação à biópsia de intestino delgado, para que a
interpretação histológica do fragmento seja fidedigna,
é fundamental o intercâmbio entre o médico
endoscopista e o médico responsável direto pelo doente
- de preferência médico experiente em
Gastroenterologia Pediátrica ou Clínica - com o médico
patologista. A orientação do fragmento de biópsia pelo
endoscopista e a inclusão correta deste material em
parafina pelo histotecnologista são de extrema
importância para a avaliação anátomo-patológica dos
fragmentos biopsiados.
O papel
do médico endoscopista no diagnóstico da doença pela
biópsia de intestino delgado é fundamental e a
execução da técnica deve ser impecável. Após a
retirada de cada fragmento da segunda ou terceira
porção do duodeno - ou porções ainda mais distais do
intestino delgado que o endoscópio consiga atingir.
Deve haver cuidado com a manipulação dos fragmentos de
intestino delgado que, por ser amostra muito delicada,
facilmente está sujeita a se desintegrar e
impossibilitar a análise histológica. Além disso, é
imprescindível que cada fragmento de biópsia seja
colocado, separadamente, em papel de filtro, com o
correto posicionamento, num total de 4 (quatro)
fragmentos em seus respectivos papéis de filtro dentro
de um frasco contendo formol.
A lesão
clássica da DC consiste em mucosa plana ou quase
plana, com criptas alongadas e aumento de mitoses,
epitélio superficial cubóide, com vacuolizações, borda
estriada borrada, aumento do número de linfócitos
intraepiteliais e lâmina própria com denso infiltrado
de linfócitos e plasmócitos. Marsh, em 1992,
demonstrou haver sequência da progressão da lesão da
mucosa de intestino delgado na DC: estágio 0 (padrão
pré-infiltrativo), com fragmento sem
alterações histológicas e, portanto, considerado
normal; estágio I (padrão infiltrativo), em que a
arquitetura da mucosa apresenta-se normal com aumento
do infiltrado dos linfócitos intra-epiteliais (LIE);
estágio II (lesão hiperplásica), caracterizado por
alargamento das criptas e aumento do número de LIE;
estágio III (padrão destrutivo), em que há presença de
atrofia vilositária, hiperplasia críptica e aumento do
número de LIE; e estágio IV (padrão hipoplásico),
caracterizado por atrofia total com hipoplasia
críptica, considerada forma possivelmente
irreversível. Nos últimos anos, alguns autores têm
tentado aperfeiçoar este critério, tanto no que diz
respeito à valorização do grau de atrofia vilositária
(41), quanto em padronizar o número de linfócitos
intraepiteliais considerados aumentados (41-44).
É
necessário comentar que a alteração de mucosa
intestinal do tipo Marsh III, que se caracteriza pela
presença de atrofia vilositária, demonstra evidência
de associação de DC (43,44), embora não seja lesão
patognomônica desta doença.
A
primeira padronização do diagnóstico da DC foi
proposta pela Sociedade Européia de Gastroenterologia
Pediátrica em 1969 (45). Este critério recomendava a
primeira biópsia diagnóstica, a seguir dois anos de
dieta sem glúten e biópsia de controle; caso esta
fosse normal, seria necessário o desencadeamento com
dieta com glúten por três meses ou até o aparecimento
de sintomas, e a 3ª biópsia que, se mostrasse
alterações compatíveis com a DC, a comprovaria
definitivamente. Caso não houvesse alteração nesta
última biópsia, o paciente deveria permanecer em
observação por vários anos, pois poderia tratar-se de
erro diagnóstico ou retardo na resposta histológica.
Em
1990, após a introdução dos testes sorológicos e
melhor experiência com a doença, a mesma Sociedade
modificou estes critérios, dispensando a provocação e
a 3ª biópsia na maioria dos pacientes (46). Exceções a
isso seriam quando o diagnóstico fosse estabelecido
antes dos dois anos de idade ou quando houvesse dúvida
com relação ao diagnóstico inicial como, por exemplo,
falta evidente de resposta clínica à dieta sem glúten,
não realização de biópsia inicial ou quando esta
biópsia foi inadequada ou não típica da DC (46).
5.
Fluxo para o Diagnóstico da Doença Celíaca
Na
evidência de sintomas ou sinais das formas clássicas e
atípicas da DC e para indivíduos de risco solicitar,
simultaneamente, a dosagem do anticorpo
antitransglutaminase recombinante humana da classe IgA
(TTG) e da imunoglobulina A (IgA).
Se
ambas as dosagens mostrarem-se normais, o acometimento
do indivíduo pela DC é pouco provável no momento.
Entretanto, na forte suspeita de DC, encaminhar o
paciente para serviço de Clínica Médica,
Gastroenterologia ou Pediatria para melhor avaliação
quanto à realização de biópsia de intestino delgado.
Em se tratando de indivíduo com parente de primeiro
grau acometido de DC, ou com diagnóstico de doença
autoimune ou doença não autoimune relacionada à DC,
repetir dosagem do TTG no futuro.
Se a dosagem do
anticorpo antitransglutaminase (TTG) for anormal, o
indivíduo deverá ser encaminhado a serviço de
Clínica Médica, Gastroenterologia ou Pediatria com
vistas à realização de biópsia de intestino delgado.
Se a dosagem do
anticorpo antitransglutaminase (TTG) for normal, mas
a dosagem de imunoglobulina A (IgA) estiver alterada,
deve ser considerada a possibilidade de falso
negativo pela presença de imunodeficiência primária,
e o indivíduo deverá ser encaminhado a serviço de
Clínica Médica, Gastroenterologia ou Pediatria com
vistas à realização de biópsia de intestino delgado.
Caso o
exame histopatológico seja positivo para lesão
clássica da mucosa intestinal da DC, confirma-se o
diagnóstico desta doença.
Por
último, para a situação de perfil diagnóstico TTG
anormal, IgA normal e biópsia de intestino delgado
negativa, o indivíduo não tem DC e o resultado da
dosagem de TTG deve ser considerado falso positivo.
Contudo, o exame histopatológico deve ser revisto e,
se realmente for negativo, ou seja, se estiver ausente
a lesão clássica da mucosa do intestino delgado,
considerar o achado endoscópico como lesão em mosaico
(acometimento em patchy) e indicar nova biópsia
intestinal com a obtenção de múltiplos fragmentos. Se,
novamente, o padrão histológico não for de DC, a
existência desta doença é pouco provável.
Fluxograma da DC: clique aqui
6.
Tratamento e Prognóstico
O
tratamento da DC consiste na dieta sem glúten,
devendo-se, portanto, excluir da alimentação alimentos
que contenham trigo, centeio, cevada e aveia, por toda
a vida (47).
Com a
instituição de dieta totalmente56 sem glúten, há
normalização da mucosa intestinal, assim como das
manifestações clínicas. Porém, no caso de diagnóstico
tardio, pode haver alteração da permeabilidade da
membrana intestinal por longo período de tempo e a
absorção de macromoléculas poderá desencadear quadro
de hipersensibilidade alimentar, resultando em
manifestações alérgicas (48). Esse quadro deve ser
considerado, quando o indivíduo não responde
adequadamente à dieta sem glúten e apresenta
negatividade nos exames sorológicos para DC.
É
necessário destacar que as deficiências nutricionais
decorrentes da má-absorção dos macro e
micronutrientes, por exemplo, deficiência de ferro,
ácido fólico, vitamina B12 e cálcio, devem ser
diagnosticadas e tratadas. Assim, deve-se atentar para
a necessidade de terapêutica medicamentosa adequada
para correção dessas deficiências.
O dano
nas vilosidades da mucosa intestinal pode ocasionar
deficiência na produção das dissacaridases, na
dependência do grau de seu acometimento. Por isso,
deve-se verificar a intolerância temporária à lactose
e sacarose, que se reverte com a normalização das
vilosidades (49).
Há
relatos de uma série de manifestações não malignas
associadas à DC, como, por exemplo, osteoporose,
esterilidade, distúrbios neurológicos e psiquiátricos
(50). Dentre as doenças malignas, são relatadas
associações com o adenocarcinoma de intestino delgado,
linfoma e carcinoma de esôfago e faringe (51). O risco
dessas manifestações está associado com a
inobservância à dieta isenta de glúten e com o
diagnóstico tardio, como nos sintomas neurológicos
(52).
Portanto, justifica-se a prescrição de dieta
totalmente isenta de glúten, por toda a vida a todos
os indivíduos com DC, independentemente das
manifestações clínicas. A adoção da dieta isenta de
glúten deve ser rigorosa, pois transgressões
sucessivas a ela poderão desencadear um estado de
refratariedade ao tratamento (49).
A dieta
imposta é restrita, difícil e permanente, ocasionando
alterações na rotina dos indivíduos e de sua família,
lembrando-se que, devido ao caráter familiar da
desordem, aproximadamente 10% dos parentes dos
celíacos podem apresentar a mesma doença (53).
Também
enfatiza-se a necessidade da atenção multidisciplinar
e multiprofissional aos indivíduos com DC, pois, além
dos cuidados médicos, eles podem precisar de
atendimento por profissionais de nutrição, psicologia
e serviço social de forma individualizada e coletiva
(53, 54).
7.
Regulação, Controle e Avaliação
A
regulação do acesso é um componente essencial da
gestão para a organização da rede assistencial e
garantia do atendimento dos doentes, e muito facilita
as ações de controle e avaliação, que incluem, entre
outras, a manutenção atualizada do Cadastro Nacional
dos Estabelecimentos de Saúde (CNES), o monitoramento
da produção dos procedimentos (por exemplo, frequência
apresentada versus autorizada, valores apresentados
versus autorizados versus pagos) e, como verificação
do atendimento, os resultados do teste de detecção e o
resultado da biópsia duodenal e as consultas de
acompanhamento. Ações de auditoria devem verificar in
loco, por exemplo, a existência e observância da
regulação do acesso assistencial, a compatibilidade da
cobrança com os serviços executados, a abrangência e a
integralidade assistenciais, e o grau de satisfação
dos doentes.
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