Repercussões orais da doença celíaca
A UTORES
António Pedro Silva
-
Médico dentista, Aluno da especialização em Odontopediatria, FMDUP
Cristina Cardoso Silva
-
Professora Auxiliar Convidada, FMDUP
Ana Alves Norton
-
Assistente Convidada, FMDUP
Paula Macedo
-
Professora Auxiliar, FMDUP
David Casimiro de
Andrade
-
Professor Associado com Agregação, FMDUP
Faculdade de Medicina Dentária da Universidade do Porto - Portugal
A doença celíaca (DC) é uma imunopatologia,
caracterizada pela reação alérgica ao glúten presente nos cereais. A
esta doença estão associadas manifestações patológicas na cavidade oral.
Pretende-se com o presente artigo salientar o papel do médico dentista
na suspeita desta patologia, realçando as suas principais manifestações
orais e seu tratamento.
AUTORES
António Pedro Silva
Médico dentista, Aluno da especialização em Odontopediatria, FMDUP
Cristina Cardoso
Silva
Professora Auxiliar Convidada, FMDUP
Ana Alves Norton
Assistente Convidada, FMDUP
Paula Macedo
Professora Auxiliar, FMDUP
David Casimiro de
Andrade
Professor Associado com Agregação, FMDUP
Introdução
A doença celíaca (DC) é uma imunopatologia que afeta 1% da população.
Desenvolve-se, normalmente, durante a infância, em crianças predispostas
geneticamente e em resposta à introdução do glúten na dieta. O glúten é
um grupo de proteínas que se encontra presente nos cereais, tais como o
trigo, a cevada, a aveia, o centeio e o malte [1, 2, 3].
A doença celíaca pode manifestar-se segundo dois padrões distintos:
clássico e atípico.
O padrão clássico é caracterizado pelo aparecimento, em criança, de
manifestações relacionadas com má absorção intestinal (diarreia crónica,
vómitos, perda de peso, distensão e dor abdominal, etc.), devida a uma
inflamação persistente do intestino delgado [4],
com a formação de auto anticorpos. Os sintomas intestinais são o sinal
de alerta e nestes casos o diagnóstico é relativamente fácil, podendo
ser comprovado por exames serológicos e biopsia.
Surgem anticorpos anti-endomisial (IgA), anti-gliadina (IgA) e
anti-transglutaminase tecidual, que podem ser detetados através de
exames serológicos [5].
No entanto, o exame diagnóstico de eleição da doença celíaca continua a
ser a biopsia do intestino delgado.
No padrão atípico, as manifestações gastrointestinais não são tão
evidentes, dificultando o diagnóstico, motivo pelo qual a doença se
encontra muitas vezes sub-diagnosticada.
Noventa e sete por cento dos doentes celíacos respondem positivamente
à dieta sem glúten, sendo este o único tratamento possível até à data.
Três por cento dos doentes não respondem positivamente a este
tratamento, e desenvolvem uma doença celíaca refratária.
A doença celíaca pode ser acompanhada de múltiplas manifestações
orais, pelo que o médico dentista desempenha um papel importante na
suspeita da existência desta doença e no tratamento das suas
repercussões.
Material e Métodos
Foi realizada uma pesquisa bibliográfica na base de dados Pubmed,
limitada a publicações dos últimos 10 anos. Foram encontrados 215
artigos com as palavras-chave "oral AND celiac disease", 15 artigos com
as palavras "oral manifestations AND celiac disease", 17 artigos com as
palavras "celiac disease AND enamel defects" e 27 artigos com as
palavras "celiac disease AND aphtous stomatitis". Foram selecionados,
para este artigo de revisão, todos os artigos de investigação
relacionados com as repercussões orais da doença celíaca, escritos na
língua portuguesa ou inglesa e que estavam disponíveis integralmente
online na biblioteca da FMDUP (14 artigos), assim como outros artigos
que, pela sua relevância, mereceram a nossa referência (9 artigos).
Discussão
Repercussões Orais da Doença Celíaca
Entre as manifestações orais relacionadas com a doença celíaca
encontram-se os defeitos de esmalte, a estomatite aftosa recorrente, a
síndrome da boca ardente, o atraso da cronologia eruptiva e uma
densidade mineral diminuída. Estas manifestações podem surgir
isoladamente ou em associação.
Defeitos de Esmalte
Durante o processo de deposição e mineralização da matriz de esmalte,
diversos fatores de origem genética ou ambiental podem condicionar a sua
formação originando defeitos no esmalte. Estes distúrbios podem ser
identificados como qualitativos (descolorações), ou quantitativos
(hipoplasias, com perda de substância) [6].
Aine [7, 15] estabeleceu
uma classificação para os defeitos de esmalte, que tem sido utilizada em
diversas investigações sobre pacientes celíacos (tabela 1).
|
Classificação |
Defeito de Esmalte |
|
Grau 0 |
Sem defeitos |
|
Grau 1 |
Defeito na coloração do esmalte;
únicas ou múltiplas opacidades de cor creme, amarela ou
castanha, com margens definidas ou difusas, sem brilho. |
|
Grau 2 |
Defeitos estruturais leves;
superfície áspera, com ranhuras horizontais ou "covas" rasas;
opacidades e descolorações podem ser encontradas; toda a
superfície do esmalte sem brilho. |
|
Grau 3 |
Defeitos estruturais evidentes;
parte ou totalidade da superfície áspera, profundos sulcos
horizontais que variam em largura ou que têm grandes "poços"
verticais; grandes opacidades de diferentes cores e/ou fortes
descolorações. |
|
Grau 4 |
Defeitos estruturais severos;
formato do dente alterado, pontas das cúspides pontiagudas e/ou
bordos incisais irregularmente desgastados e ásperos, margens
das lesões bem definidas; a lesão pode estar fortemente
descolorida. |
Tabela 1 -
Classificação dos defeitos de esmalte, segundo Aine, citado por
Wierink [7] e
Cheng [15].
Segundo Aine, citado por Wierink e Cheng, os defeitos de esmalte
característicos dos pacientes celíacos são específicos, apresentam um
padrão simétrico e são detetáveis cronologicamente nos quatro quadrantes
da dentição, sendo estas características típicas de uma etiologia
sistémica [7, 15].
Apesar de nem todos os autores terem encontrado uma relação direta
entre a DC e a etiologia dos defeitos de esmalte [22],
muitos são os estudos que constatam esta associação positiva
[7, 8, 9, 10, 11, 22].
Um estudo realizado por Bossu em 2007, refere que o esmalte
hipoplásico dos pacientes celíacos é mais frágil que o esmalte dos
pacientes não celíacos. Com o objetivo de caracterizar os defeitos de
esmalte dos pacientes celíacos e na tentativa de diagnosticar a doença
pelas características destes mesmos defeitos, os autores analisaram
também, através de microscopia eletrónica, que os prismas do esmalte nos
pacientes celíacos se apresentam mais pequenos, com uma distribuição
mais irregular e com uma menor quantidade de substância interprismática.
Neste estudo também verificaram que a localização predominante das
lesões de esmalte nos pacientes celíacos é nos dentes incisivos e nos
primeiros molares [10].
O mecanismo etiológico do aparecimento dos defeitos de esmalte nos
pacientes celíacos é ainda desconhecido. No entanto, existem, três
hipóteses explicativas:
- Segundo Nikiforukand Fraser, citado
por Wierink, os baixos níveis séricos de concentração de cálcio,
resultantes de uma má absorção intestinal, são determinantes para a
origem dos defeitos de esmalte. No entanto, num estudo realizado por
Wierink, em que os pacientes do grupo controlo apresentavam também
má absorção intestinal, o número de defeitos de esmalte foi muito
inferior comparativamente com o grupo teste, constituído por
pacientes celíacos
[7].
Segundo Aine et al e Maki et al,
citados por Wierink, uma resposta autoimune contra os ameloblastos
poderá estar na origem etiológica dos defeitos de esmalte nos
pacientes celíacos [7].
Segundo os resultados de um estudo
realizado por Mariani et al, conforme cita Wierink, os pacientes
celíacos com o genótipo HLA-DR3 apresentaram um risco de lesões de
esmalte aumentado, apontando para uma causa genética deste distúrbio [7].
Estomatite Aftosa Recorrente
A estomatite aftosa recorrente (EAR) é caracterizada por uma ou
múltiplas úlceras dolorosas, na mucosa oral, de forma circular ou
ovoide, que apresentam um halo eritematoso. É uma das mais prevalentes
condições orais patológicas, que afeta aproximadamente 20% da população
em geral, em algum momento das suas vidas. As EAR estão categorizadas em
minor, major e herpertiforme, sendo a minor a mais comum entre as EAR [14].
A etiologia da EAR é desconhecida, no entanto o trauma local, o
stress, o desequilíbrio hormonal e a hipersensibilidade alimentar são
fatores predisponentes para a doença. Várias condições sistémicas estão
também associadas à EAR, tais como doença de Behçet, Sida, reações a
drogas, neutropenia cíclica, deficiências nutricionais e hematínicas
(ferro, ácido fólico, vitamina B12) e doenças gastrointestinais (Crohn,
Doença Celíaca) [14].
Num estudo recente, realizado por Cheng e colaboradores, foi
demonstrado que 42% dos pacientes celíacos apresentaram EAR, enquanto no
grupo controlo, apenas 23% apresentaram a condição patológica [15].
Outros estudos relataram uma associação positiva entre a DC e a EAR.
Campisi realizou em 2007 um estudo sobre a prevalência de EAR em
pacientes celíacos, verificando que 42% dos pacientes apresentavam EAR,
e que no grupo controlo, constituído por indivíduos saudáveis, apenas 7%
apresentavam esta condição patológica [8].
Em 2008, foi publicado pelo mesmo autor, um estudo de larga escala (269
doentes celíacos), onde se verificou que 22,7% dos pacientes celíacos
apresentaram EAR em contraste com apenas 7% no grupo controlo [17].
No entanto, existem estudos nos quais os autores não encontraram
associação entre EAR e doença celíaca [16].
É importante referir o significado que pode ter a EAR no diagnóstico
da doença celíaca. Alguns autores estudaram a prevalência da DC em
pacientes com EAR. Aydemir diagnosticou 2 casos de doença celíaca (4,8%
de 41 pacientes) em pacientes com EAR [18].
Num estudo mais recente, realizado por Shakeri, apenas 2,83% dos casos
de EAR foram diagnosticados com doença celíaca [19].
A possível explicação para esta correlação hipotética entre a EAR e a
DC é a típica deficiência hematínica (ferro, ácido fólico e vitamina
B12) característica dos pacientes celíacos. Cerca de 20% dos pacientes
apresentam este tipo de deficiência. Depois de diagnosticada a DC e
implementada uma dieta livre de glúten, a EAR tem tendência a diminuir
de incidência.
No entanto o valor preditivo positivo destas lesões para o
diagnóstico da DC é muito baixo. A EAR por si só não justifica a
realização de exames auxiliares para diagnosticar a DC, no entanto, é
considerado de interesse clínico se a par de EAR se verificarem sinais e
sintomas de má absorção intestinal [6].
Outras Repercussões Orais
Os pacientes celíacos apresentam alterações do ecossistema oral.
Lenander-Lumikani verificou que, num regime de dieta sem glúten, os
pacientes celíacos secretam menor quantidade salivar de amilase, IgA, e
IgM [13].
Mina e colaboradores verificaram também baixos níveis salivares de IgA,
um menor volume de saliva/minuto quando estimulada e menor capacidade
tampão, assim como um menor rácio de cálcio/fosfato [23].
O esmalte destes pacientes apresenta uma maior prevalência de
pigmentações extrínsecas de cor negra. Os autores sugerem que estas
pigmentações sejam também devidas a alterações da microflora oral [10, 12].
Num estudo realizado na Finlândia, citado por Pastore, 29% de 128
pacientes com DC referiram possuir ardência na língua [6].
Em relação à erupção dentária, existem estudos que mostram que os
pacientes celíacos apresentam, frequentemente, um atraso na erupção
comparativamente com a população em geral [15].
A par desta manifestação oral, um dos sinais típicos da DC é o atraso no
crescimento.
A densidade óssea mineral encontra-se reduzida nos pacientes
celíacos, antes da implementação de um tratamento com uma dieta livre de
glúten. Assim, existe um risco acrescido de fratura óssea. A osteoporose
pode ocorrer como resultado de uma absorção intestinal defeituosa de
cálcio e de vitamina B12. Após a implementação de uma dieta livre de
glúten, a densidade óssea tem tendência para se aproximar dos valores
normais [20].
Conclusões
A doença celíaca é uma doença relativamente frequente e, se não
diagnosticada, pode originar sérias complicações. O Médico Dentista tem
um papel importante, pois pode ser um dos primeiros a suspeitar da
existência desta condição.
Hoje em dia existem exames serológicos, nomeadamente o teste
anti-endomisio e anti-transglutaminase, que apresentam uma
especificidade e uma sensibilidade próxima dos 100%. Estes exames
poderão ser utilizados numa primeira fase, em indivíduos considerados
pacientes de risco, tais como os pacientes com defeitos de esmalte
sistémicos e simétricos, já descritos por Aine na década de 80, estando
recomendado o encaminhamento para estudo pelo médico assistente.
Em relação às restantes manifestações orais, estomatite aftosa
recorrente e atraso eruptivo, por si só não são consideradas critérios
suficientes para classificar um paciente como sendo de risco para a
doença celíaca. No entanto, torna-se importante considerar os casos que
além de EAR apresentem simultaneamente deficiências hematínicas.
Consideramos ser necessária a realização de mais estudos que permitam
avaliar o grau de risco para a doença celíaca em crianças que apresentem
uma associação das repercussões orais descritas anteriormente.
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